quarta-feira, 11 de novembro de 2020

terça-feira, 10 de novembro de 2020

CRÕNICAS DO ASFALTO

 Sesc 24 de Maio, um mergulho no corpo e alma da cidade...sem filtros.





Fui convidada a conhecer o SESC 24 de Maio, por uma entrevista de um de seus arquitetos à Rádio USP. Quando ele não soube precisar quanto se gastou na obra para responder ao entrevistador, mas quando disse que poderia falar sobre a concepção construtiva do SESC 24, baseada em manter a feição do velho prédio da Mesbla, ressaltando o traço desafiador disso, numa cidade cujo perfil é do apagamento do "velho", da não preservação da memória, de sua História e cultura, do destruir pra começar de novo, pensei comigo " ali tem poesia, tem algo revelador!". E ele poeticamente falou da visão que o prédio oferece da cidade em seu Centro, vendo de cima, pelos vãos, de toda forma, além de oferecer um local de lazer e convivência popular, em região tão carente dessas "delicadezas".
Pois assim, embarcamos no sábado para conhecer o SESC 24 de Maio, que nos abriu as cortinas para uma São Paulo despudorada, nua, mostrando sua rudeza em corpo e alma. E não há como fugir desse exorcismo, asseguro, pois que essa alma de São Paulo pode ser vista tanto pelas janelas, que mostram a cidade excludente, desigual, degradada e rica, mas sempre pulsante, e pode ser conferida na exposição sobre sua História, arte, pessoas, sentimentos...tudo se confundindo com um bocado de cimento nas estruturas construtivas dos prédios e das gentes.
É bonito, ao modo paulistano de ser bonito. E é cru, no modo paulistano de se ser triste ou feliz ou de se ser sabe-se lá o que.



sexta-feira, 24 de julho de 2020

O Rei Bufão






Era uma vez um rei bufão. Os maus espertos diziam que seria fácil dominá-lo; os sábios bons diziam que, com sabedorias, iriam derribá-lo.

E o tempo passava e ele praticava toda a sua torpeza. 

No começo, para espanto dos bons e dos maus, seus feitos eram jocosos, típicos de  bufão. Tais feitos iam desde chuveiro de xixi,  palavras chulas, gestos vergonhosos pro mundo ver, reverências humilhantes a outros reis, até bravatas de falsas declarações de guerra, para o pânico de todos. 

- Foi brincadeira!, dizia. E nem os maus espertos, nem os sábios bons conseguiam detê-lo. 

Sabia-se que o rei bufão tinha uma caneta mágica, que desescrevia num dia o que havia escrito no dia anterior,  e essa caneta causava balbúrdias no reino, sobretudo entre os bons. E enquanto todo mundo tentava traduzir seus escritos e desescritos, o rei bufão sussurrava  maldades bem piores à noite e o reino amanhecia ainda mais desajustado e triste.

Um dia, veio uma peste, uma peste virulenta que matou muita gente em vários reinos. 

Todos, os espertos maus e os sábios bons, sentiram que, agora, era chegado o fim do tempo do rei bufão. Afinal, pensavam eles, com mortes não se brinca.

Mas o rei bufão não negou sua estirpe engraçada, até aplaudida por muitos com cuja vida ele também brincava, e sendo muito, mas muito bufão, passou a brincar com morte, sim. Com a morte dos outros. 

Mandou embora os ministros da saúde, desacreditou os cientistas, jogou falsas curas no ar, sempre com um sorriso nos seus dentes feios. Jogou as vidas de seu povo num tabuleiro de sorte e azar. 

Uma vez, em uma de suas divertidas apariçóes, ele até correu atrás de uma ema com um veneno na mão, veneno que oferecia a seu povo como remédio contra a terrível peste. Como ria!
.
Não se achava um jeito. Nem os maus espertos, nem os sábios bons conseguiam dominá-lo ou derribá-lo, e o rei bufão continuava a ser rei quase sem preocupação.

E o reino cada dia morria mais um pouco, até virar uma montanha de mortes. 

O rei bufão ria, o rei bufão mentia, o rei bufão prosseguia. E a história não termina.

Era uma vez um rei bufão. Os maus espertos diziam que seria fácil dominá-lo, os sábios bons diziam que, com sabedorias, iriam derribá-lo..."






(Imagem: detalhe da obra "Cucorongna e  Pernoualla", Jacques Callot, Água forte, 1622)


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Senta que lá vem filme : O VALOR DE UM HOMEM






O filme francês "O Valor de um Homem" (La Loi du Marché, de Stéphane Briz; 2015) mostra a peregrinação de um homem, já contando com mais de 50 anos, para recolocar-se no mercado de trabalho. Ele é casado e tem um filho deficiente de seus 12 anos.

No início da trama, aparece o personagem em entrevista com um agente de recolocação, em que questiona o porquê de seu encaminhamento para um curso de aperfeiçoamento e estágio de alguns meses, para então tais conhecimentos ser tidos como obsoletos pelas empresas contratantes. Curioso é que as cenas tinham uma câmera estática e deixava, por muito tempo, a cena fluir pelos diálogos e pelas expressões, de modo que a fala, às vezes persistente, e até repetitiva, mantida num mesmo ponto de argumento, era muito menos dinâmica e bem mais pobre do que a mudança sutil, mas contínua, dos semblantes nesse mesmo intervalo de tempo. O ator Vincent Lindon tem uma atuação preciosa!

No decorrer do filme, a fala do personagem vai diminuindo e entrando para si, deixando cada vez mais espaço à expressão, como nos ocorre quando somos submetidos a desventuras reiteradas e sem uma tábua de salvação ao alcance de nossas vistas. De fato, a gente vai guardando a fala, por preguiça ou medo ou falta, ainda que o silêncio denuncie muito mais pelos gritos da expressão corporal. E os olhos...esses são os mais proeminentes oradores.

Há, no filme, cenas fundas sobre a conscientização dessa precariedade, da perda da força e a rendição. Eu destacaria, dessas cenas, a conversa com a moça do banco, a negociação sobre a casa e a aula de dança, entre tantas primorosas. 

Enfim, toda a perda de autoestima, da graça que a falta de dinheiro e ou de perspectiva impingem ao homem comum, deixando nele um halo triste no corpo e na alma, é mostrada na história, no conjunto, por meio de um sistema cruel e desumano que devora, como mar em ressaca, as pessoas, o personagem. E isso sendo paulatinamente imposto como o "normal" da vida. 

Ele não é Daniel Blake... Poucos são, poucos somos.

Filme tocante.


terça-feira, 14 de julho de 2020

Da fome e dos sorrisos











O velho me pediu um prato
Um pedido roto em olhos rotos
para uma fome atávica
No chão, sentado esperava
na calçada turbulenta da gente
que desviava sem reclamar
De fato, ninguém reclama
da pobreza no caminho prestes
a aliviar-se de sua própria miséria
e da indisposição para incômodos
de fomes outras no caminho
Vem a fumegante iguaria
recendendo aos prazeres da boca
e das mãos que a recebem
entre rugas, sujeiras
e um desenho histórico
Mãos que se metem
num saco de guardar o nada
e a fome e o frugal banquete, adiados,
para o alívio dos olhos,
da humilhação e da espera
Pela presente e futura partilha
antes da partida, sorrisos mudos
sorriso meu, sorriso dele
um triste sorriso na boca com dentes
e um sorriso alegre sem nenhum dente na outra
Da boca nua uma tal alegria
que a minha tão distante convida
para essa alegria de quem não esqueceu
que, para além de morder,
dentes servem aos sorrisos
E meu sorriso tão caro e branco
tão faminto de contentamentos
entende que sorriso ele mesmo
sem nada, nada a ser mais bonito
seria esse grande e largo sorriso sem dentes
alimentado por pão, direito e abrigo




sábado, 30 de maio de 2020

Conversando com Bukowski II - Revelações de Confinados *





Não posso escrever sobre o fora, se tudo agora se passa dentro.

Não tenho temperamentos de contar horas de espera, tampouco ter ciência do esperar, o que me impacienta. Não me apraz, como um condenado, contar as memórias de uma prisão, talvez porque nunca estivesse numa e, agora, prefiro não pensar em grades, grades de medo.
Mas como escrever sem contar, se contar alguma coisa não se desprende de uma necessária contagem cronológica? (Dia 01 - Acordei cheia de esperança e corri na sala; dia 02, ainda com esperança mas com dor no corpo da corrida de ontem; dia 03 tive um lampejo de extrema lucidez e quase me desesperei, passei o dia na cama; ... dia 50 estou quase acertando meu enésimo cronograma de rotina diária que não cumprirei e me angustiarei ..._)

- Não, amigo, essa marcação não me ajuda, espanta a minha musa criativa e já ando me assustando de perdê-la de vez. Tenho medo de pensar que ela nunca tenha existido (essa pandemia, segundo dizem, anda tão reveladora!).

Reinicio antigas leituras e nas mãos me cai justamente seu livro, uma espécie de diário, um diário pré-morte. Isso a um tempo me abre uma perspectiva de ideia e a um tempo me paralisa. Ainda não é esse tema de espera que me acalenta, a espera dela, a morte todo dia numa curva de um gráfico ascendente, piscando um olho pra você.

- Escrever sobre o que nos implica desde que nascemos e, justo agora, nesta fase em que tudo em si já é duvidoso e só nos surpreendemos quando não confirmamos a certeza de que ela, enfim, nos escolheu. Não seria óbvio demais escrever sobre a morte do nosso corpo, a morte da nossa coragem, das vidas outras que nem tivemos ou teremos tempo de conhecer?

Você me sorri amarga e ironicamente a dizer que eu ainda não entendia o que se passava e me saca essa:

- "Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate."

Você foi genialmente cruel. Percebeu minha fraqueza ou defeito intransponíveis. Não estava para unguentos sobre a ferida de choronas.
Joguei seu livro longe. Começar assim seria o fim para mim, trair-me ilusões neste momento, já tão escassas em mim, sobre minha capacidade de escrita e tudo o mais. Isso seria a morte. E ei-la, de novo, aqui...
Tenho, então, uma súbita vontade de xingá-lo, de chamá-lo de velho bêbado, mas tudo isso seria tão infantil, quanto agressivo e mentiroso. Eu lhe digo quase em sussurro:

- Você é incrível. Me desculpe por invejar tanto você, esse sentimento rasteiro e vil, que revela querer tomar para si aquilo que não é seu senão no que toca na admiração que lhe causa.

Vejo seu rosto entre fumaças do cigarro e  um demorado silêncio sobrevém. O silêncio permanece, embora em minha mente tudo seja tumulto. Estou quase rendida, com uma ridícula vontade de chorar. Mas quando percebe que estou pronta a desabar, você me diz:

- "Os escritores são os mais difíceis de aguentar, nos livros ou ao vivo. E são piores ao vivo do que nos livros e isso é muito ruim. E nós adoramos falar mal uns dos outros. Como eu."

E arremata :

-"Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado".

Não sei ao certo se poderia tomar a mim esse qualificativo  de escritor ou se você, indo mais fundo na ferida, falava só de  si mesmo, o único escritor na cena. O que sei é que, de alguma forma, essa fala me fez menos pesada; poderíamos discorrer sobre qualquer assunto e de qualquer altura já que eu já estava seguramente alocada no chão. Então,  eu lhe disse:

- Descubro que sempre escrevi sobre as histórias em parte que eu vivi.. E havia certa literatura nessa escrita. Havia, de fato, mais: havia lirismo na vivência. Eu inventava a minha realidade para escrever sobre ela. Eu vivia para escrever.  Eu supunha que escrevesse para fugir da realidade, que escrever fosse necessariamente a porta de saída para outra realidade. Era o contrário: era a porta para entrar nela. Agora me sinto sem vida, não consigo escrever.

Você se agita, parece que, enfim, encontramos um lugar para começar. E pega o copo pousado na mesa, arrasta-o para junto de si e se torna distante como se estivesse revivendo um momento específico interno. Se bom ou ruim, não pude apreender, pois subitamente, você tomou um gole da bebida e disse:

- "Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo lhe darão mais força. (Segue uma sequência de tosses). "Não há perdas em escrever, faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte."

Foi daí que eu me lembrei de um inquietante sonho em que eu me encontrava numa cidade cheia de ladeiras, cidade festiva e eu buscava a entrada de um restaurante em que estivera. Não sei por que havia saído dele e todas as portas eram parecidas mas não me levavam a esse lugar pretendido. Quando encontrei a porta mais parecida, ela me levou para baixo e para baixo e, embora sendo um restaurante, aquele lugar não me agradou e acordei com a sensação de que não sairia nunca dele:

- Sabe, Buck - posso chamá-lo assim? -, a minha escrita é uma busca de si mesma, ou eu me busco a mim não por ela, mas escondendo-me nela. Eu vou na frente, sem olhar pra trás, para que ela me siga. Quando o faz e me alcança,  me surpreende como se eu não soubesse que ela esteve ali sempre na corrida, na captura de mim. Devo confessar que, quando isso acontece, tenho do que escrevi ciúme e amor - o tal amor possessivo e tenebroso. É como se não tivesse nascido de mim, mas dela mesma, a escrita.

_ "Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo." - você completa como uma conclusão.

 Ficamos ambos em silêncio sem nos olhar direito, como dois jogadores de cartas que não querem revelar nenhum sinal.

Pensei que, então, era disso que se tratava. É saber moldar qualquer matéria prima que se tenha nas mãos. Falta-me a magia do artesanato ou o fascínio por ele?

Tenho uma alma fascinada pela natureza humana. Gosto de escrever sobre gente, sobretudo mulheres e seus olhares caminhando por toda a galeria de sentidos e sentimentos emaranhados. Entender a dor do caule que perdeu a flor para o vento de outono.. Com essa peste eu não vejo as pessoas senão em suas imagens projetadas, roteirizadas. Pessoas ao vivo não podem se proteger de todas as perspectivas de olhares, aquela que lhes pega a essência sem mesmo saberem que foram flagradas. A  internet, algoritmos, redes sociais, os sorrisos ou a infelicidade em ondas coletivas. Por onde posso ver com aquele olhar surpreendente? Esse distanciamento no que dizem que aproxima, isso me confunde. Eis nova vida! Mas também isso pressupõe uma uma morte. "Ela, de novo", pensei.

- Talvez eu já tenha escrito tudo o que eu vivi. Estou paralisada na entrada desse novo viver.

Você apenas me olha e continuo:

- Tenho a impressão de que, com a quarentena, as pessoas estão se transportando para a vida nova com o mesmo estilo de pensar e ver da vida velha. Apenas mudaram de casa. Sabe que transam, namoram, fazem negócios, atrasam-se em reuniões, tudo pela internet?

_"Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com essa espécie insípida e tediosa?"

Pego minha lista de contatos em meu celular, deslizo o dedo nas telas que se apresentam. Até que não pouco, até que não muitos:

- Sabe que, em minha lista telefônica, em sua grande parte, só há nomes de pessoas que eu, um dia , abracei? Depois que estiveram nela, nunca mais.

Na verdade, eu é que nunca estive em lugar algum. Sempre saía de fininho, querendo sempre estar em lugar diferente. Agora que posso "estar" em toda parte, eu não sei pra onde ir ou fugir. Fugir também era meu desejo : ir embora. Agora basta apertar um botão pra eu sumir de vez, mas tenho medo.

 - " Em parte, é o poder da rotina, um poder que mantém a maioria de nós. Um lugar para ir, uma coisa para fazer. Somos treinados desde o começo. Sair, entrar. Talvez haja alguma coisa interessante lá."

- Talvez.

Tive frio. Dera-me conta de que já se passava das quatro horas da manhã. Aquele misterioso galo, que eu não sei de onde canta, em plena capital paulista, fez-me despertar do transe. Ao lado, um copo de uísque intacto ( havia colocado ali para acompanhar você). Eu estivera bêbada sem ele; supus que foi somente seu hálito que me tivesse lançado a este estado letárgico. Sentia-me sozinha como você. Sempre estive, sempre estivemos.

- Continuamos nossa conversa depois? - perguntei.

Você girou o dedo sobre a boca de seu copo de uísque. Não me olhou. Estava ausente.

Muito frio. Eu queria agora somente o aconchego quente da cama aquecida pelo corpo de meu homem, que há muito dormia em nosso quarto.

Hesitei em levantar-me, mas o fiz. Sem olhar para mim, você dirigiu seus olhos para o teclado e o botão "on/off" do notebook. Não sabia se queria mesmo desligar tudo, apertar o botão ou deixar como estava, para, quem sabe, tentar de novo amanhã. Esperei... O galo longínquo cantou novamente. Uma promessa de amanhã, de vida? Não sei. Fiz o meu registro. Foi sobre ela que falamos, enfim. Por que não?

(...)



* As falas atribuídas a Bukowski neste diálogo, apresentadas entre aspas, são citações extraídas de seu livro "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio"; tradução de Bettina Gertum Becker, L&PM Editores, Porto Alegre, 2018.









domingo, 3 de maio de 2020

ESTE TEXTO NÃO CONTA MORTES, CONTA VIDA.


Não sabemos quanto tempo será. O que importa é que todo o tempo seja de vida.

A pandemia, de um modo simbólico (ou não), é a morte e a vida que resolveram conversar conosco um papo franco. Antes, simplesmente ignorávamos uma e outra, agora não mais.

"Cada dia pode ser o último",  dizíamos isso sem muita crença, tal a nossa capacidade de evitar uma verdade escancarada. E prosseguíamos em nosso barco sem  preocupar em olhar a viagem e, muito menos, de cuidar de guardar a moeda ao barqueiro.

Agora um tanto assustados, proclamamos, então, como uma repetição para nos acalentar, que tudo será diferente e que será melhor. E acreditamos mesmo que assim será! Mas, no fundo,  sempre está o medo. Será que estamos preparados para isso? Vamos saber viver esse novo? Haverá tempo para nos refazermos e adaptarmos? E a pergunta mais difícil e recorrente: estaremos nesse novo mundo?

Impotentes, quem diria.

E nos projetamos num futuro para evitar o presente, este agora tão difícil e tão sem máscaras, embora de máscaras precisemos para permanecer nele. A vida, em si mesma, um paradoxo.

É imenso o significado disso! Toda a humanidade foi colocada nesse despertar, nesse estalo para o que sempre foi e é.
A novidade tão somente é a nossa presença desperta para a página a virar.

Medo, luto, choro, alegria, fuga, inconformismo, raiva, descrença, esperança, amor, desejo, cansaço, dúvida, apatia, conexão, criatividade, bloqueio criativo, espanto, perdão, susto... Todos esses estados alvoroçam-se em nós a seu tempo, intensidade e necessidade e são legítimos, como legítimo é o movimento de deixá-los fluir sem precisar entender.  E  essa conversa obrigatória e diuturna com a vida e a morte faz-me, enfim, apreender que a única razão de existir é simplesmente estar e ser. Como o sol que amanhece e entardece e a noite que vem, apenas ser.

Assim, já não me servem as despedidas antecipadas, velhas companheiras de  velhas melancolias. No livro das páginas que viram incessantemente - aprendi e vejo agora -  a história é a da celebração, sem tempo medido, das presenças, dos presentes; a sempre surpresa feliz dos reencontros de cada dia, todo dia. Tudo é reencontro e, ao mesmo tempo, perenidade.

Além de respirar e alimentar e ansiar e sonhar, viver tem de ser também restabelecer toda a multiplicidade de sentimentos tantos que nos façam pulsar. Sentir não pode estar, como nosso corpo, momentaneamente, enquadrado num espaço limitado de nossa casa ou qualquer outro lugar de proteção a que recorremos, neste momento. Que não nos restrinjamos a nostalgias, saudades, expectativas. Nem tempo passado, nem tempo futuro: viver sempre foi agora, sentir é agora. Sem pressas, sem atrasos, apenas agora.

A vida está em toda parte quando já esteve dentro de nós.

Tão clara, assim, a inexistência da dicotomia vida e morte, quando tudo é encantamento, como bem definiu o escritor dos sertões de Minas Gerais! (Guimarães Rosa que soube tão bem juntar a rigidez da aridez geográfica com a sutileza de flor das almas sertanejas.).

E simplesmente me debruço à  janela a contemplar a tarde que é linda. Já vejo a primeira  estrela a se apresentar; desconfio que a seu lado paira um suspeito disco voador...

Ovnis e estrelas pulsam no céu, este céu que se movimenta em mil cores na celebração de mais um reencontro do dia com a noite.

...

Embora se possa pensar que já não, a vida ainda está lá fora.  E há vida também dentro desta janela, dentro das janelas. E isso conta, e muito.

domingo, 12 de abril de 2020

Ciranda





Ela girava
girando fazia
volta e volúpia
girava nos olhos
o corpo rodando
no tempo e distância
do próprio desejo
o beijo esperado
nos lábios  suspensos
por olhos que viam
rodava naquela ciranda
de carne e fogo
Faíscas saltadas
do caramelo quente
da cor de seus olhos
chamando ao jogo
rodando a vez da jogada
escorrida no espelho
da fumaça do chuveiro
que revelava
em sombra e luz
seus sexos envoltos
mostrados nos corpos
ausentes presentes
E tudo girando
sem troca
sem toque de pele
e almas desnudas
em palavras encarnadas
gritando amor e grunhido
tão longe, atrevido
ardendo em vontade
girando a cabeça
nos seios redondos
aos dentes e língua
tão presos na boca
aberta de espanto e tontura,
tortura...
E ambos giravam
giravam a roda
da sorte, fortuna
de nova promessa
ciranda da carne
ciranda da alma
ciranda da espera
ciranda do amor





domingo, 5 de abril de 2020

ORAÇÃO A BELCHIOR POR UMA VELHA BALADA NOVA




Quando tudo isso acabar, vou fazer como aquela mulher do episódio de Black Mirror, que abandonou as redes sociais totalmente.

Nunca mais quero que uma telinha seja minha única janela, porta, boca, abraço, olhos, pulsão.

Vou ser como o Kaspa Hauser libertado, Thoreau na integração essencial com a vida; saber descrever o sabor de sentido no exato momento da mordida na pera como no filme dos anjos. Reverenciar os sulcos na pele, a vitória sobre a exiguidade do tempo.

Mas, se tem uma coisa que abolirei logo de início é de não dizer o que é importante face a face, num bem claro sim ou num bem claro não. Nunca mais uma conversa interrompida, inacabada na covardia de dois sinaizinhos azuis, a indelicadeza da fala sem ouvidos.

E que votos de Feliz aniversário deixem de  ser esses vazios profundos, perdidos numa centena de milhares de mensagens de meio milhão de amigos intocados com seus dedinhos imaginários em riste. E que nunca mais os olhos sejam sugados por luz metálica roubando presenças. As revoluções, por vezes tão necessárias, parem  de ser sinônimo de indignação feita e sentida só no computador. E que a mentira não mais seja tanto faz verdade. E nenhuma  nudez caiba apenas na palma da mão.

Finalmente, e acho que é a maior graça a alcançar, é que o medo e o "self" deixem de ser senhores de tudo.

Que eu sobreviva a isso, se não na carne, poesia, poeta.

Amém.



quarta-feira, 25 de março de 2020

Não Vou Sair

A doçura da melodia não esconde a melancolia pela imolação de escolher, entre tantas perdas, a menos dolorosa, e Celso Viáfora, em sua lindíssima canção 'Não Vou Sair", declina com mestria esse sentimento.

Vem dos tempos duríssimos em nosso país, os anos de chumbo, a canção que credita à inigualável beleza natural da pátria um acréscimo de razão aos sacrifícios de amor, de vida, de futuro para  se ir ficando, ficando por ela.

É difícil, de fato, a qualquer um partir quando os olhos batem no luar e a lua vai bater no mar. É poesia falando com poesia. A nossa terra é uma poesia!

Sempre senti o sentimento dessa música, mesmo quando era uma canção que, então, para mim, falava de tempos remotos. E mesmo assim doíam as dores da terra sofrida, dos amores adiados, das vidas perdidas, das chagas que pessoas tão próximas a mim presenciaram e tiveram.

Hoje olho de minha janela, privilegiada de alturas, esse céu anoitecendo, em tons de azul e alaranjado e essa estrela solitária piscando como um código Morse. E a tal canção de Viáfora já não me diz de passados.

Fito essa estrela mensageira que, como a lua convidativa da canção, vem nos dar razão para ficar. Ficarmos em casa, ficarmos em nós, ficarmos vivos, ficarmos por ela.

E, tão cansada, nossa terra pátria generosa afaga-nos ainda com seu belo sorriso doente como se deixasse de pedir socorro para si mesma e nos acalentasse deste nosso angustioso presente.

Tão bonita, tão violada essa tão  gentil senhora com seu formato geográfico de  um enorme coração! Adoeceu em seu corpo, em seu espírito, em seu ventre e ainda nos concede, com sua graça, o bálsamo de um ínfimo esquecimento.

Mas me lembro. Lembro de te pedir perdão, o perdão de todos os filhos seus que te levaram a isso.  E me ponho à janela a contemplar o céu, agora escuro de uma escuridão meio triste. Nele a estrela já não há, não há o luar, nem lua batendo no mar, mas por você eu vou ficando... viva.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Amor no porta retrato

Amor bom é o que nem precisa
ser dito em palavras;
que aparece na sutileza do mínimo,
nos cuidados descuidados,
no complemento dos pensamentos,
na certeza de que não se precisa
de mais nada, de mais nada mesmo
para dizer que "sim, sou feliz".
E dá-lhe felicidade sentida,
felicidade sentada
na janela do porta-retrato!