COM AMOR E FÚRIA
Filme de Claire Denis
A primeira ideia que se tem é a de que se trata de mais uma história sobre triângulo amoroso. Mas, a meu ver, aquele triângulo clássico não há ali, não.
Pode-se dizer que o filme dirigido por Claire Denis fala de muitas questões profundas que envolvem relacionamentos entre pessoas que têm entre si uma ligação amorosa de qualquer natureza. E tudo que advém disso mais a sociedade e seus valores e esse tubo de ensaio de gente e vida.
Primeiramente, é imprescindível ressaltar as atuações de Juliette Binoche e Vincent Lindon e a habilidade de a diretora tirar deles o que havia de melhor. A verdade de suas atuações nos toca a pele, os sentidos mesmo, a ponto de percebermos o frio da água, o ambiente sufocante do apartamento na volta de uma viagem idílica, o odor variável do sexo nas diferentes circunstâncias emocionais dos amantes envolvidos.
O que me deu a sensação de a história não tratar precisamente de um triângulo amoroso de duas pessoas que se descobrem amando e o impedimento de um terceiro indivíduo nessa relação foi que, por mais da metade do filme, quem está nessa instabilidade pela volta de um antigo amor (François) é exclusivamente Sara. É pelos olhos dela que o enxergamos, é ela que, nas perguntas ao marido, vai narrando os enredos que ela deseja, num desejo projetado no esperado desejo do outro. Esse outro, por sua vez, torna-se extremamente presente, antes mesmo de o personagem de François em "carne e osso" ter a sua existência efetiva em cena. O expectador não tem conhecimento de quem ele é senão por esse olhar de expectação dela e pelos lampejos de existência dele, como uma espécie de fantasma (para ela e para nós).
Essa sensação de Sara, materializada nesse recurso inteligente da diretora (a presença sem presença), se põe em contraposição com a realidade crua do marido Jean e sua gentileza sofrida, com todos os seus problemas de fragilidade econômica, insegurança quanto ao futuro do filho negro numa sociedade conservadora e racista, a sua falta de lugar por morar onde não se sentia em seu lugar, as dificuldades de recuperação de cidadania por ser um ex presidiário e a sua submissão em relação ao amigo, sabido ex grande amor da esposa, e que lhe aparece como uma oportunidade de se recolocar como homem e como profissional.
É um casal, portanto, que se identifica nesse lugar de ambos estarem numa situação de submissão diante de um senhor comum personificado no antigo amigo que volta às suas vidas. Pode-se vislumbrar no comportamento do casal, diante desse "retorno do passado", até relações abusivas nos diferentes arranjos Sara/François e Jean/François, muito embora isso não se revele de forma concreta, mas por meras ilações, de vez que, no curso do filme, não sabemos se temos algo efetivo desse homem misterioso senão por conclusões que tiramos, assim como os personagens com ele envolvidos.
A contação do enredo é brilhante! Contrariamente a esse brilho, tem-se a diminuída nitidez das imagens. De fato, nitidez é tudo o que não há quando se instala (ou já se apresenta instalado, mesmo sem saber) esse caos emocional de tantas vertentes e cuja lanterna é uma tal força de amor lanhada por insatisfações naturais da convivência, da intimidade de muito tempo, dos longos relacionamentos, sejam estes quais forem. É muita desproporção.
Outro elemento que me pareceu revelador dessa confusão de perspectivas emocionais é o fato de somente dois personagens, Sara e Marcus (afora os figurantes de cena aberta para ambientarem o momento histórico em que transcorria o enredo), usarem, nas cenas de rua ou de chegada do ambiente externo, as máscaras da pandemia. Tais personagens são os estigmatizados, os mais fragilizados e suscetíveis às imposições das circunstâncias da vida e dos valores conservadores sociais: ela, a mulher, casada, que ama, que deseja, e ele, o menino adolescente, negro, da periferia, que tem que pensar antes na sua cor para escolher uma profissão, aos quinze anos de idade. É um misto de sufoco e de dificuldade de fala.
É um filme visceral e belíssimo que merece ser visto com entrega. É um filme sobre a vida de qualquer um, sobre paixão, o "crème de la crème" de se sentir vivo. E todo o medo, coragem, amor e fúria que isso envolve.
Recomendo, pelo menos, três vezes. <3
Maria Angélica Taciano

