quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Filme: COM AMOR E FÚRIA

 COM AMOR E FÚRIA

Filme de Claire Denis


A primeira ideia que se tem é a de que se trata de mais uma história sobre triângulo amoroso. Mas, a meu ver, aquele triângulo clássico não há ali, não.


Pode-se dizer que o filme dirigido por Claire Denis fala de muitas questões profundas que envolvem relacionamentos entre pessoas que têm entre si uma ligação amorosa de qualquer natureza. E tudo que advém disso mais a sociedade e seus valores e esse tubo de ensaio de gente e vida.


Primeiramente, é imprescindível ressaltar as atuações de Juliette Binoche e Vincent Lindon e a habilidade de a diretora tirar deles o que havia de melhor. A verdade de suas atuações nos toca a pele, os sentidos mesmo, a ponto de percebermos o frio da água, o ambiente sufocante do apartamento na volta de uma viagem idílica, o odor variável do sexo nas diferentes circunstâncias emocionais dos amantes envolvidos.


O que me deu a sensação de a história não tratar precisamente de um triângulo amoroso de duas pessoas que se descobrem amando e o impedimento de um terceiro indivíduo nessa relação foi que, por mais da metade do filme, quem está nessa instabilidade pela volta de um antigo amor (François) é exclusivamente Sara. É pelos olhos dela que o enxergamos, é ela que, nas perguntas ao marido, vai narrando os enredos que ela deseja, num desejo projetado no esperado desejo do outro. Esse outro, por sua vez, torna-se extremamente presente, antes mesmo de o personagem de François em "carne e osso" ter a sua existência efetiva em cena.  O expectador não tem conhecimento de quem ele é senão por esse olhar de expectação dela e pelos lampejos de existência dele, como uma espécie de fantasma (para ela e para nós).


Essa sensação de Sara, materializada nesse recurso inteligente da diretora (a presença sem presença), se põe em contraposição com a realidade crua do marido Jean e sua gentileza sofrida, com todos os seus problemas de fragilidade econômica, insegurança quanto ao futuro do filho negro numa sociedade conservadora e racista, a sua falta de lugar por morar onde não se sentia em seu lugar, as dificuldades de recuperação de cidadania por ser um ex presidiário e a sua submissão em relação ao amigo, sabido ex grande amor da esposa, e que lhe aparece como uma oportunidade de se recolocar como homem e como profissional.


É um casal, portanto, que se identifica nesse lugar de ambos estarem numa situação de submissão diante de um senhor comum personificado no antigo amigo que volta às suas vidas. Pode-se vislumbrar no comportamento do casal, diante desse "retorno do passado", até relações abusivas nos diferentes arranjos Sara/François e Jean/François, muito embora isso não se revele de forma concreta, mas por meras ilações, de vez que, no curso do filme, não sabemos se temos algo efetivo desse homem misterioso senão por conclusões que tiramos, assim como os personagens com ele envolvidos.


A contação do enredo é brilhante! Contrariamente a esse brilho, tem-se a diminuída nitidez das imagens. De fato, nitidez é tudo o que não há quando se instala (ou já se apresenta instalado, mesmo sem saber) esse caos emocional de tantas vertentes e cuja lanterna é uma tal força de amor lanhada por insatisfações naturais da convivência, da intimidade de muito tempo, dos longos relacionamentos, sejam estes quais forem. É muita desproporção.


Outro elemento que me pareceu revelador dessa confusão de perspectivas emocionais é o fato de somente dois personagens, Sara e Marcus (afora os figurantes de cena aberta para ambientarem o momento histórico em que transcorria o enredo), usarem, nas cenas de rua ou de chegada do ambiente externo, as máscaras da pandemia. Tais personagens são os estigmatizados, os mais fragilizados e suscetíveis às imposições das circunstâncias da vida e dos valores conservadores sociais: ela, a mulher, casada, que ama, que deseja, e ele, o menino adolescente, negro, da periferia, que tem que pensar antes na sua cor para escolher uma profissão, aos quinze anos de idade. É um misto de sufoco e de dificuldade de fala.


É um filme visceral e belíssimo que merece ser visto com entrega. É um filme sobre a vida de qualquer um, sobre paixão, o "crème de la crème" de se sentir vivo. E todo o medo, coragem, amor e fúria que isso envolve.


Recomendo, pelo menos, três vezes. <3


Maria Angélica Taciano

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

A Flor e o Canhão em "Ainda Estou Aqui".

 

Para quem não viu o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, porque não tem interesse pelo tema da ditadura, posso dizer que o filme me surpreendeu justamente pelo tema tratado ali, que é o afeto. É um filme de amor.

O título das obras  (filme e livro) são reveladores da ausência que nunca acaba ou da inextinguível presença que não se confunde com saudade. Essa ausência, esse estado de sem corpo abrupto e eterno que a Ditadura impôs a tantas famílias, retirou lhes até isso, o direito à saudade. Vagam todos na eterna espera de não se sabe o quê.

O assunto do filme seria mais uma canção em nossos ouvidos sobre a chaga aberta da Ditadura, se não houvesse nele, talvez, o olhar genial do diretor Walter Salles em pura empatia com o sentimento do autor do livro, Marcelo Rubens Paiva, conseguindo retratar, com delicadeza, assunto tão árduo sem lhe retirar um pingo da seriedade e importância. 

O filme, em suma e ao que parece, conseguiu transpor a porta blindada da naturalização dos anos de chumbo feita pela mídia e pelo poder dominante, que criou um falso distanciamento de nossa realidade contemporânea com aquela realidade brutal que o pais viveu por décadas. Como se todo o horror tivesse sido ou pudesse ser esquecido pelo país e suas novas gerações.

Se os golpes de Estado recentes, consumados e frustrados, mostraram que a apresentação da verdade sobre a Ditadura não conquistou as mentes, a ousadia obstinada do filme perverteu essa dinâmica ao se apresentar com a coragem de conquistar corações, em terras tão cevadas pelo ódio.

Isso se dá quando o filme coloca a vida, os afetos, as relações comuns de uma família como outra qualquer sendo estraçalhadas pelas botas cruéis e assassinas da ditadura, por agentes sem nome e de caras feias, por dores de suplícios corporais e emocionais das torturas físicas e mentais, e tudo sem  qualquer motivo explicável. A flor contra o canhão.

Quem, mesmo não sendo militante político ou sequer tendo nascido naquela época, não se viu representafo naquela família de almoços de domingo, de um pai trabalhador e amoroso, de um marido atencioso, de uma mãe alegre e viva, de irmãos e seus risos e rusgas infantis, de animais de estimação adotados?

De repente, essa "sua" família é assolada por uma violência totalmente desconhecida de sua realidade. E tudo fica escuro no filme e dentro do peito e todos não têm como não perceber que a Ditadura é essa escuridão.

Que falta fazem aquele pai, aquela mãe, aquela família que já não somos! O personagem de Selton Mello, o Rubens Paiva, macio com seu porte bonachão, sorriso e  olhar inocentes,  não sai de dentro de nós, está o tempo todo presente ausente. E nós viramos a mâe, nós viramos Eunice a esperar sabendo que não terá fim essa espera.

É muita identificação!

Esse filme é imprescindÍvel por esse chamado, esse esclarecimento não apenas dos fatos particulares e reais daquela família e do "fato da sangrenta Ditadura" que nos assolou por tantos anos, mas o é principalmente por fazer brotar, a partir do sentimento, do afeto, a repulsa genuína e incontornável por tudo o que é autoritário. Ninguém consegue ousar defender ditadura depois desse filme. Talvez somente eles, os Ditadores execráveis de sempre.

E, por tudo isso, é bom ver que as salas são tomadas por muitos jovens e que as lágrimas, que são inevitáveis seja pela lembrança, seja  pelo inédito conhecimento dessa tristeza, seja pela beleza que se torna feiúra, seja pela beleza da história narrada e encenada, são agora uma força comum e compartilhada.

A gente sai da sala de cinema com uma fome de abraços e de Democracia, convictos de que levamos a marca inevitável que nos identifica: ainda estamos todos juntos aqui e ditadura nunca mais. Entenderam?

Maria Angélica Taciano

#aindaestouaqui#oscar2025

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Senta que lá vem resenha de filme: As Árvores da Paz"

 AS ÁRVORES DA PAZ E A OUSADIA DO PERDÃO


O belíssimo filme As Árvores da Paz, NETFLIX,  retrata, por meio do olhar de quatro personagens, o horror do genocídio ocorrido em Ruanda, no conflito entre as etnias hutu e tutsi, na década de noventa. 


As condições peculiares vividas por essas quatro personagens sintetizam, em falas, expressões corporais, circunstâncias extremas, íntimas e externas, o horror da cegueira da humanidade e da violência brutal que com esta advém, e que culminam por colocar irmãos contra irmãos, um povo contra si mesmo.


O filme não recorre a registros de violência explícita, muito pelo contrário, centraliza o discurso em quatro mulheres que vão traduzindo toda a violência histórica de países ricos contra países pobres ( ou por aqueles empobrecidos) e o limite de desumanização que essa desigualdade promove. 


Reclusas, durante meses, em um minúsculo cômodo de dispensa sob o chão de uma cozinha (onde se passa todo o filme), para se esconderem do horror, essas quatro personagens vivenciam o medo, a fome, privações fisiológicas, as atrocidades cometidas contra civis, compartilhando, entre si, na solidariedade como último refúgio de sanidade e dignidade, as fundas feridas que cada qual também já trazia por conta de uma ordem social atroz que consegue ser tão violenta contra vulneráveis quanto as milícias insanas que vinham dizimando civis, antigos amigos, colegas, professores, vizinhos...


Essas mulheres, ao fim,  representam diferentes segmentos étnicos e sociais de qualquer parte do mundo e, no entanto, ali, revelam que não há diferenças entre gentes, em suas dores e esperanças. 


Embora trate de um tema profundamente triste, tomando Ruanda como um exemplo de ignomínia, dentre tantos,  a película é profundamente sensível, exaltando a nobreza de gestos e sentimentos, "sementes para a paz", e ditada pelo ritmo, fases e voz das mulheres.


Não à toa. 


Até a edição do filme (2021), Ruanda se posicionava como o país a ter mais mulheres, no mundo, em postos de poder. No processo de pacificação e democratização do país, foram desenvolvidos tribunais populares  que buscam a reconstrução da confiança entre cidadãos, tentando recompor a ideia de unidade de um povo. Esses tribunais são promovidos e mediados, em sua maioria, por lideranças femininas, o segmento mais violado nesses conflitos, e têm usado o "perdão"como instrumento político de unificação e compreensão Histórica das causas do conflito.


Um filme muito bom, sensível e necessário para reflexão sobre as chagas do ódio entre um mesmo povo e a ousadia do perdão como cura.


Maria Angélica Taciano

terça-feira, 8 de outubro de 2024

O Zé

 


       Existem pessoas que são a própria personificação do final feliz. O Zé é uma delas.

    O final feliz que sempre foi, para mim, um misto de êxtase e frustração, traduzindo uma verdadeira aflição em pensar que, bem na hora que tudo iria bem, que, enfim, o melhor da vida nas histórias começaria a se apresentar, pronto!, vinha o letreiro por termo ao estado de deleite perseguido por todo o decorrer do enredo. Acho que veio de aí a minha mania de sempre complementar o desfecho depois do desfecho dos filmes num sem fim danado de possíveis felicidades estendidas. Pois é, acho que o Zé transpôs para a vida real essa extensão.

    As pessoas final feliz, como o Zé, talvez nem o sejam de verdade e vivam naquele segmento de existência como que se tivessem tendo suas histórias assistidas por alguém, num curtíssima metragem de um momento.

    São aquelas figuras que, em suas intermitentes passagens pela nossa retina, ostentam, no mesmo grau, brevidade e intensidade temporal. Elas têm uma história particular, você sabe disso, mas não sabe tão bem assim dessa história, de sua vida concreta; e sempre esbarra com elas nesse átimo de final feliz apreendido não pelo testemunho dos fatos, mas por sua narração..Elas nunca estão naquele ponto da vida que você as deixou num último encontro. E nada está no território do projeto futuro. Nunca. Sua fita roda continuamente, num clímax constante como se existir não fosse, como para a maioria de nós, uma sucessão de momentos ordinários, duvidosos, uma chatice mediana que costumamos chamar de realidade.

    Eles estão sempre em movimento: mudaram de emprego, de casamento, de casa, estão prestes a fazer uma pequena alteração aqui ou acolá, e tudo num encaixe perfeito de rotina e emoção. E não se trata de acontecimentos exatamente significativos - o emprego, o casamento, o endereço -, tudo cumpriu seu tempo sem espanto. Se para você, pobre infeliz, todas essas passagens deixaram de ser propósito, seja por desânimo, preguiça ou desilusão, para pessoas como o Zé tudo foi feito com a leveza de seus passos lépidos, sempre pisando na ponta dos pés como quem sente o chão quente. E tudo melhor do que poderia ser, afinal.

    O Zé, fazia tempo que eu não o via, porque nunca tivemos uma relação de proximidade verdadeira, embora inúmeras tenham sido nossas promessas de fazê-lo. Encontrei-o num café, à tarde, debruçado sobre um quindim a que dedicava o cuidado de um prazer roubado. Ele me viu primeiro, parada diante de meu café amargo. Quando respondi com certa solicitude à surpresa do encontro - uma alegria quase verdadeira em mim - seus olhos se encheram de luz no preparo da jornada verbal que então se avizinhava. Eu era ouvidos.

    O Zé deixara, havia pouco, a cidade para morar num sítio muito próximo à cidade, aliás, um local que era o misto da pujança financeira da metrópole com a tranquilidade da mata. E o melhor, a poucos minutos de um e outro. A ele cabia virar a chave para a paisagem que queria. E os negócios, agora alocados numa ilha de puro verde e ar puro e pássaros cantantes, num condomínio de segurança, reunia e entregava tudo o que, um dia, foi necessidade. Já não mais as tinha. Estava realizado.
  
    Contou que a filha se mudara para o exterior, e, antes que eu soasse a interjeição lastimosa pela separação, ele já decantou "as sem razões do amor" e a conveniência desse exílio para o crescimento da moça e da família. E a tal distância, de alguma forma, se encaixava perfeitamente em seu outro atual modo de vida: podia alugar o lindo quarto da moça no airbnb, no tempo exato de sua ausência intermitente. E a casa seria menos vazia e se encheria de histórias a contar para a peregrina, quando retornasse.

    Outra maravilha era deixar, de manhã, o filho no trem, para o trabalho. Era o movimento certo de deixá lo e, na volta, pegar aquele pão fresquinho na padaria preferida e tomar o desjejum, agora calmamente com a companheira. E depois os negócios no andar de baixo, num arranjo ideal que quase me fazia vislumbrar as cores laranjas de um por do sol num cintilante azul prateado contornando o Zé. Pisquei os olhos, ele então se apresentou como um contraponto à minha miragem de então, contando da enfermidade do irmão...

    De sua quase desventura com a tal doença e cirurgia desse irmão resultou a cura de espírito dele próprio, o Zé, e de muita gente. Agora estava tudo bem, o irmão deixou de trabalhar tanto, vivia mais, comprou um apê na orla marítima de Recife e desfrutava a alegria de estar vivo. Todo o desfecho com um tanto de realidade mas um bom bocado de final feliz vinha dessa alma do Zé. E, agora, ainda, o Zé tinha os motivos e lugar perfeitos para desfrutar, vez por outra, da terra do frevo e do sorriso do irmão renascido. (Nesse momento, aos seus olhinhos perdidos em algum lugar e tempo bons, se juntava um sorriso de criança. Achei o Zé tão bonito!).

    Ah, o Zé! Comecei a pensar comigo o que fazia seus dias assim tão finais felizes.

    Acho que, na verdade, ao nos relatar sua sequência de felicidade, o Zé vai meio criando um roteiro, reordenando a sua história em encadeação de acontecimentos e lugares não exatamente inventados, mas de outra forma revelados. O Zé é como um projetor que traduz em luz as personagens e fatos comprimidos, codificados nas películas fotográficas escuras, reproduzindo numa sucessão iluminada, colorida, positiva a vida real em negativo, que nem sempre é um filme bom, sabemos, mas que, teima o Zé, sempre pode ser uma história passível de ser recontada e, na contação, vivida de outra forma sob os auspícios de uma sua autoria.

    Enfim, o Zé precisa por ordem na sua poesia e faz da vida em final feliz um farol de esperança para si mesmo, talvez, mas, certamente, para os que se propõem a assistir ao espetáculo de seu número. Sorte de quem compra o ingresso, pois não é sempre que se tem um Zé Mambembe fazendo barulho, colorindo, dividindo felicidade ainda que meio inventada, que adoça o café amargo e os dias de deserto.

    Não sei em que estado de ânimo, depois do encontro, o Zé seguiu seu caminho e também não sei quando, nas voltas de seu farol, encontrarei novamente sua luz. A mim me coube o empréstimo daquela felicidade lépida e passageira como os encontros furtivos com o Zé em suas traquinagens diabéticas em doçuras proibidas (ainda que o Zé afirme que o quindim daquela loja não carregue níveis glicêmicos significativos. Talvez mesmo não!). Mas posso dizer a vocês, sem invenções ou reordenação de emoções, que desse encontro do Zé e de mim, eu simplesmente segui feliz. Fim.
Que subam os créditos.





quarta-feira, 24 de abril de 2024

Tive dó

 



Eu tive dó 

Da mulher condenada pela lente

Ao banco dos réus 

Por  um juízo de "lives"

Que nada tem a ver com vidas 


Morto, a propósito, o velho 

Outra vez, no velho Banco 

Teve de novo negado 

Como na vida

Seu último pedido de socorro


Tive dó do velho morto 

Exposto ao escárnio 

Dos que, pior que ele, mortos já são 

E que não têm de bancos senão 

Dívida e expropriação 

Mas se preocupam se o Banco

perde aos mortos um seu milhão


E da mulher, mais sábia que eles

Que já não distingue morte e vida

Tive dó


 Tenho dó 

De todos nós à deriva

De todos em busca de algo

 E de alguns tostões de atenção 

Mortos à própria sorte

Vagando feito vivos 


E tão vivos , por outro lado

O Banco e homens de toga

Ninguém duvida

Juízes a condenarem à morte um país 


Mas sem lentes para os julgar 

Nem olhos para ver ou entender

O mútuo que fazem com a vida de todos

Com suas palavras em azeite


O velho

Embalsamado só na vergonha, 

Tanto humilhado na vida

Implora ao banco um último respiro

Quem sabe a salvar a filha

Aquela que sem saber

Não mais podia distinguir a morte e a vida

E muito antes dele jazia.


Tive dó 


segunda-feira, 8 de abril de 2024

SENTA QUE LÁ VEM FILME: "Anatomia de Uma Queda"







O filme francês Anatomia de Uma Queda, da diretora Justine Triet, e com atuações pungentes, brilhantes, sobretudo de Sandra Hüller, é arrebatador!


Retratando a história da suspeita sobre a morte do marido de uma escritora e o julgamento desta como "possível autora de um possível crime', começo por dizer que não é mais um filme sobre tribunais e assassinatos. Tais elementos servem apenas como palco para a apresentação de questões muito mais intrincadas que transformam a fria dinâmica do ambiente judiciário ali retratado numa verdadeira ágora ou num complexo divã. 


Já de início o que se vê é que a primeira queda é a da verdade. Tudo é dúvida.


Na busca de se qualificar um fato extremamente duvidoso como um crime certo, o que se vê, no decorrer da trama, é a distorção e construção de versões na defesa ferrenha dos diferentes entendimentos de uma teórica verdade. A verdade, que deve ser apenas colhida como flor que desabrocha natural, passa, assim, a ser criada e colocada como um prêmio a um vencedor, sendo submetida, nos tensos e excitantes momentos das cenas no tribunal, a uma carga de velhos preconceitos sobre temas sensíveis (fidelidade/traição, relacionamento aberto, bissexualidade, patriarcado, inocência e culpa) que permeiam as conhecidas formas de julgamentos moralizantes de nossa sociedade.


Esse emblemático ambiente da Justiça tão sujeito a falha, tão indiferente à matéria gente, tão cego da verdade, tão  desconcertado diante da dúvida, é representado, principalmente, nas figuras das personagens do jovem promotor com sua lógica, por vezes, distorcida, e da burocrática juíza, ambos ávidos para verem coroadas a sua predisposição particular à compreensão dos fatos. A uma criança cega - e essa simbologia é genial! - coube o papel de relembrar aos doutos guardiães do bem e do mal social qual é o verdadeiro sentido de Justiça.


No entanto, é no transcorrer do dia a dia, na intimidade recôndita das personagens centrais, que a anatomia se dá de forma paulatina e profunda, revelando as mazelas e demônios dos indivíduos nas suas relações com os outros e consigo mesmos, diante da incapacidade de lidar com questões demasiado humanas e que podem levar qualquer um a quedas, como a intransponível sensação de fracasso pessoal, experimentada pelo personagem do marido Samuel, ou a impossibilidade de  reconexao do casal assolado por mágoas, disputas, desconfiança, delimitando os vários territórios e "línguas" dentro de uma família.


Nessa hora, nós, os espectadores, somos envolvidos por essas circunstâncias humanas,  nossas velhas conhecidas, e, sem perceber, deixamos de ter um lado na história e vemos somente a dor da tragédia que tocou nas vidas daquelas pessoas, que não têm sequer a oportunidade e o tempo para se dedicarem ao seu luto. 


A essa altura do filme, está consumada a anatomia evocada no título  e que vai muito além da literalidade que inicialmente se supõe. Nada é mais desequilibrante do que dissecar fragilidades, fraquezas e ambiguidades num espelho que se quebra diante de todos ou diante daqueles para quem gostaríamos de ter o nosso melhor reflexo.


As razões das quedas, que qualquer ser vivente sobre a terra pode conhecer e reconhecer, ao fim as sentimos escorrendo pela nossa face e caindo em gotas num abismo de encanto e susto regidos por uma trilha sonora belíssima que completa a grandeza da obra prima apresentada pela diretora.  E o último abraço do filme não nos deixa sentir menos que isso.


Maria Taciano

sexta-feira, 29 de março de 2024

SENTA QUE LÁ VEM FILME: "FUCK! " - AMERICAN FICTION







    




O filme American Fiction, premiado ao Oscar 2024 na categoria Melhor Roteiro Adaptado e indicado a várias outras categorias da premiação, não foi um filme tão aclamado comercialmente, porém, com sua aparente despretensão, pode-se dizer que é um filme bem provocativo e incômodo.

Dirigido por Cord Jefferson e baseado no livro Erasure (apagamento), de Percival Everett, o filme trata do tema do racismo sob a ótica de compreendê lo também entranhado nas manifestações do não racismo, este tido não somente como insuficiente, mas, por vezes, antagônico ao antirracismo, como diferenciou muito bem Angela Davis.

O tema central da história é a inconformação do personagem principal, Monk (Jeffrey Wright), o apelido de Thelonious Ellison, que, como acadêmico e escritor negro e vendo que seus bons livros não embarcam na aceitação das editoras, majoritariamente brancas, revolta-se em perceber que a tal da representatividade e pluralidade proclamadas pela indústria literária somente aceitam a produção negra, naquilo que, para a sociedade, é o limite do universo de existência política, social e cultural negras: a pobreza, a violência, mães solteiras, dialetos, confronto policial, etc. A indùstria quer livros de autores negros que falem de "histórias negras", "livros negros", pontua o agente literário do escritor Thelonious.

Pois bem, Wonk, muito "fuck" da vida ( e, logo ali, explico a expressão em inglês) com tais clichês reducionistas, desafia a hipocrisia do segmento e escreve um livro horroroso, propositadamente de péssima qualidade, e o lança sob o pseudônimo de um inventado autor fugitivo da prisão. Para completar, insiste em dar o nome final ao livro "FUCK!", para espanto inicial dos endinheirados editores brancos, mas aceitação plena posterior, porque, aliás, essa é mesmo a "linguagem dos negros", usualmente usada por bandidos ou por aqueles potencialmente aptos a sê-lo, fatalizam.

O livro "Fuck!" é aceito, lançado, ovacionado por público e crítica e começa a ser preparado para virar filme com pretensões futuras ao Oscar.

Monk fica desolado com o fato de o objetivo de sua ironia fracassar e, mais ainda, se vê premido, pela necessidade familiar, de ter de aceitar o dinheiro enorme que "Fuck!" lhe proporciona.

Embora o filme faça uma crítica direta ao nicho literário, vemos que toda essa expectativa para o acesso possível a uma conscientização branca sobre a questão está em todos os setores. Por exemplo, no começo do filme, temos uma sensação de inversão, quando a aluna branca, numa sala de alunos brancos, confronta o personagem central, professor preto, acadêmico, doutor (aliás, como os demais membros de sua família preta), porque ele quer discutir um livro do seculo XVIII com seus alunos e, para tanto, parte de uma frase extraída do tal livro que usa o termo "negro" de forma racista (nigger). Mesmo ele explicando que se trata de um livro antigo que tem de ser entendido dentro do contexto da época, ela não se conforma com a grafia da frase escrita na lousa. A menina branca sai chorando ofendida da sala e ele é repreendido por colegas brancos na sala dos professores.

Por outro lado, o filme vai discorrendo sobre a vida privada complicada de Monk e de sua família de classe média: a mãe com Alzheimer e as dificuldades materiais e emocionais de se lidar com essa paulatina ausência, a dor pelo suicídio recente do pai, a aproximação com o irmão cirurgião, que recentemente se assume gay e sempre se sentiu rejeitado pela família, as perdas de pessoas amadas pelos fatos naturais da vida e das relações. Enfim, nada do esplêndido drama da família de Monk é "uma história de negros", mesmo sendo apenas uma história de verdade.

Assim, com situações em que você ri e chora ao mesmo tempo, o filme, muito bem conduzido e com diálogos preciosos (com destaque para o debate na biblioteca entre Monk e a autora negra premiada por seu recente "livro de negro"), em suma, fala dos mecanismos capitalistas de perversão de lutas e mercantilização das mesmas, e como, ao usar de uma outra linguagem, tem na força visível e invisível da estrutura dominante os meios de tentar manter as coisas exatamente como sempre foram, com os indivíduos em "posições aceitáveis" na sociedade e o dinheiro/necessidade e o lucro sendo os grandes regentes de absolutamente tudo. É dinheiro para comprar manifestação, indignação, luta, fala, lugar de fala, dor, livro, vitórias, apresentando a ordem estabelecida com outra roupa, mas exatamente a mesma. No frigir dos ovos, o que se tem é contorcionismo para obter o triunfo da continuidade do sistemão velho de guerra.

American Fiction te deixa com essa adaga na garganta, sem sabermos se é uma facada que nos tira a respiração e a vida ou uma traqueostomia que as devolve.

Há esperança?

A esperança, e ela sempre tem de haver, reside, enfim, no "cenário movediço do infinito", para usar de uma definição do poeta Baudelaire, ou seja, na luta contra o racismo ou qualquer outra opressão, uma luta que é necessariamente incansável, sem tréguas e sem fim.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

TRABALHADORES, UNI-VOS CONTRA A GUERRA!




 TRABALHADORES, UNI-VOS CONTRA A GUERRA!


A profusão de imagens do horror em Gaza, penso eu, terá um efeito contrário ao que se pretende.


Se a situação fosse contada e contada, para que a capacidade da imaginação desenhasse o horror, na medida do que é horror para cada um, quem sabe se pudesse pensar que a situação se aproximasse mais, e de fato, ao humano de cada qual. 


No quesito de credibilidade, tanto a imagem quanto a contação verbal dos fatos ocupam o mesmo lugar de aceitação da verdade. Hoje, cada um acredita no que quer, diante da mais incontestável evidência.


Nós tivemos 700 mil mortos, no Brasil, pelo descaso na administração da COVID por um governo, de então, igualmente genocida quanto o de Israel. Além de pauta para notícia de alguns veículos de imprensa e indignação para os de sempre, nada de concreto se viu ou vê para punir os responsáveis pela morte de tanta gente. Vamos esquecendo... A estatística crescente e diária do número de mortos foi-se tornando uma rotina e, em vez de aproximar, nos afastou da dor do outro.


Mas como a bomba da COVID podia explodir em qualquer um, a reação requereu efetividade e direção objetiva contra a ação destrutiva do inimigo. Para o anticiência, tascamos-lhe Ciência e a vacina veio contrapor a rapsódia de morte orquestrada por quem da morte vive.


E qual é a vacina contra Netanyahu, para um tal enfrentamento efetivo? É o dinheiro. 


Assim, de novo, o confronto se dá entre a riqueza e a produção de riqueza. Contra o vírus sionista, somente um constrangimento popular sobre os governos dos países, para que tomem medidas efetivas para frear a sanha assassina de Israel, é eficiente. Por ele de novo, por aquele que tem força  e deixa de usá-la é que se dá o caminho para tombar a praga fascista representada, no grau máximo, no genocídio perpetrado em Gaza e imediações. É pela paralisação de toda e qualquer produção de riquezas que a mais letal resistência se fará. 


Braços cruzados da classe trabalhadora, que produz riqueza, paremos o mundo todo pela paz e pela responsabilização de quem a perturba! Sindicatos, movimentos, organizem-se para parar o dinheiro no mundo, por um dia que seja, e veremos Netanyahu e afins se desintegrarem como poeira ou como os prédios que eles derrubam sobre a cabeça de inocentes.


Assim, mais uma vez, a vida conclama: "trabalhadores, uni-vos", inoculando o antidoto no âmago do causador de todas as guerras e amarguras: o capitalismo.


Junto com nossa voz, que estejam os braços também!


#FreePalestine 


Maria Taciano

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A Você, com Amor*


Faz um tempo que não visito o meu amor.  A peste contemporânea ampliou as distâncias e reinventou formas de amar que ainda estranhamos. Faz tempo que não vivo o meu amor por você. 


Lembro, saíamos de mãos dadas vagando, misturando-nos à multidão das ruas...


Em calçadas bonitas de bairros protegidos ou nos lugares da ausência de Estado e de calçadas, ali nas quebradas, vivíamos nosso amor errante, sem previsão de programas, tempo e temporal. (Quantas vezes nos amamos sob marquises aguardando o cessar da chuva e dividindo espaço com aqueles que fazem do amor um outro negócio, que também faz parte desse nosso amor! Como não?) 


Passeávamos por culturas, uma inusitada comida, uma festa ou uma passeata de ciclistas nus levando flores ao túmulo da outra, que foi atropelada pelo ódio, na via exclusiva de ciclistas. E no lusco fusco de poente com fumaça, íamos nos levando, recebendo a noite entre tiroteio  e cachaça. 


Chegávamos em casa na madrugada e ainda  nos pendurávamos junto à janela esperando sabe-se o quê, com olhos ávidos na vida vista do alto do edifício, de sob o viaduto ou das estrelas que ainda piscavam no ar. E topávamos com essa vida que também já vinha correndo. em sentido oposto à madrugada que termina para a madrugada que começa em trens, ônibus, metrôs, lojas acendendo o dia para mais um outro dia. 


Eu sempre perdi para o sono, pondo nosso amor  em espera. Você não, você nunca dorme, cuidando em vigília para continuar  e continuar nesse seu compasso sem parada e de todos os ritmos.


Hoje vi você festejada. Percebi que já não tem o mesmo talhe de altivez, juventude e irreverência. Finalmente, está mais velha, um tanto decaída pela convivência mais brutal da dor e alegria destes tempos mais hostis que cimento.   


Mas você ainda carrega  todo o seu charme e o meu amor meio cansado. Ah, esses avessos infinitos em que nos desdobramos para dançar  nos seus braços e nos sentirmos pertencidos à sua dureza, realidade e sonho! Qual!


Parabéns para você, pelo seu aniversário e por, apesar de todo o tempo e reviravolta da vida e da morte, não deixar de prosseguir sendo você e eu e todo o mundo que você carrega como dom e como sina.


Parabéns, São Paulo, a grande Sampa de todos os afetos e dos meus afetos.


São Paulo, 25/01/2022 ❤️

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

SENTA QUE LÁ VEM FILME : "O DESTINO DE HAFFMANN" ("Adieus, Monsieur Haffmann"; França, 2020)

 



                               (Imagem: Foto reprodução de Guernica, de Pablo Picasso)


Quando o mundo é tomado pelas trevas do autoritarismo, como o foi no nazismo e outros sistemas autocráticos, a integridade moral e ética que identifica a humanidade do indivíduo tem de ser vivida em segredo, clandestinamente. Nesse ambiente, ela é tão vulnerável quanto preciosa, sendo, por isso, o maior alvo da brutalidade e coação.
A integridade é quando a tempestade de fora não encontra berço na tempestade de dentro.
É sobre a integridade que fala o delicado filme O Destino de Haffmann (Fred Cavayé, 2020, França), que conta a história do desdobramento da relação que se estabelece, de necessidades e abusos, entre um humilde e complexado empregado, sua esposa, o patrão joalheiro judeu e um oficial nazista, diante do terror da ocupação alemã na França de 1941.
Num ambiente eivado de incertezas, medos, perdas materiais e afetivas, num momento sem luz de civilidade, é pelo perfil moral de cada um dos personagens centrais que se fazem e desfazem laços que, em outras circunstâncias, seriam impensáveis.
A partir da identificação do limite do aceitável ético para cada um é que a trama vai descortinando, evolutivamente, a profundidade psicológica dos personagens, revelando mazelas e grandezas justificáveis e injustificáveis, diante de um contexto tão difícil de uma guerra.
Usando a excepcionalidade da guerra e da ocupação de um país subjugado, o filme e sua cuidadosa condução ( cada detalhe é um passo que avança na descoberta dos personagens em seu papel de vida) demonstram como permitimos que a violência se instale em nossa casa e espírito, à medida que vamos nos escondendo sob a justificativa do medo e do cuidado exclusivo aos nossos, ditos amados.
Em suma, a história do filme mostra do que o totalitarismo se alimenta. Como num desdobramento do pensamento de Hannah Arendt, apresenta, todo o filme centrado em cenas do dia a dia ordinário do interior de uma casa e família durante a ocupação nazista na França, como o totalitarismo é sustentado por um querer inconsciente que se torna consciente, e este querer revelado não é o querer de um povo como totalidade coletiva, mas um querer individual das pessoas e que se soma. É o horror que se torna uma oportunidade e se retroalimenta da ignomínia que gera e que por ela é gerado.
Filme muito bom, de tema muito contemporâneo e que joga luz sobre nossas grandezas e miudezas de alma, mostrando que é no valor da integridade ética que se assenta o último refúgio de resistência.
Como vela a alumiar a profunda escuridão, é essa integridade que distingue em nós as guerras de fora das guerras íntimas, como forma de evitar ou combater opressões e manter nossa dignidade e humanidade, pois, como nas palavras lúcidas de admoestação do personagem oficial nazista, "a guerra passa."

terça-feira, 21 de junho de 2022

SENTA QUE LÁ VEM FILME: "O OLHAR INVISÍVEL"

 

O filme argentino, O Olhar Invisível, dirigido por Diego Lerman, com roteiro deste e de Maria Meira, na NETFLIX, é espetacular! Fala sobre o transcorrer dos dias da vida de uma jovem inspetora de escola, no contexto de uma Argentina no período final da ditadura militar.
Exercendo seu ofício com a rigidez imposta pelo momento político, também dentro dos muros da escola, a personagem Marita, despida de um olhar crítico para "as ciências morais" das normas escolares, pouco a pouco, se vê envolvida e confrontada pelo autoritarismo vigente. Este se mostra cru e implacável com todos os fracos e com seus longos braços alcançando tudo, inclusive aqueles que pensam estar protegidos sob qualquer espécie de concerto, expresso ou tácito, com tiranos e colaboradores do regime.
A película, muito fluente e com uma carga forte de tensão, coloca-nos caminhando ao lado da inspetora e mostra, paulatinamente, como a opressão se infiltra em todos os segmentos da vida física, social e psicológica das pessoas comuns. É todo um ambiente sob a vigilância de um "olhar invisível" contaminando o viver, os afetos com uma tristeza de dias descoloridos e sem qualquer proteção.
Pode-se dizer que, além de muito bom, o filme serve como ensaio experimental para os que bradam que se pode ter vida ou alguma paz sob as asas violentas, corruptas e abusivas de ditaduras. É um choque de realidade para os "iludidos".
Ditadura nunca. Nunca mais!

segunda-feira, 21 de março de 2022

Pelo Homem do Mundo

27/03/2020
 


Lembro da indicação do Papa Francisco e sua eleição e que muitos amigos, não só de aqui desta rede, lógico de convicções políticas progressistas, mas de vivência de vida real criticaram minha  expressão de grande esperança por sua jornada. Muitos relacionando sua suposta contribuição para o regime ditatorial na Argentina.


Na época, ponderei que acreditava no poder do arrependimento e que seu histórico mais recente indicava um sacerdote completamente comprometido com a causa dos pobres e necessitados. Logo após, vi o aval de Leonardo Boff e, então, pronto, fui dormir em paz. 


Confesso que o fato de ele escolher o nome Francisco e ser Argentino ( quem me conhece de perto sabe o imenso apreço que tenho por essa gente, que, recentemente, mostrou sua capacidade aguerrida de recuperar seu norte com a eleição de um governo de esquerda, depois de um baita erro e, assevere-se, sem golpe e sem perder a democracia. E, além disso, tem Maradona e  Gardel e o tango...) influenciaram muito meu olhar condescendente.  Mas não foi só isso.


Bem, já conheci algumas religiões e cheguei à minha própria conclusão de que elas não são a representação do divino, mas uma construção humana com todas as falhas e erros dos homens, em sua eterna relação de poder e medo. Minha ligação de fé é direta com Deus e Jesus e a natureza. Sim, sou uma simpatizante comunista que acredita em Deus.


Então, por que motivo meu encantamento com esse líder espiritual?


Justamente por esse seu olhar para as misérias humanas, todas e não só a material. 


Ele é um cara que traz Jesus pra terra, como tão bem relatou o samba enredo da Mangueira. Um cara que reensina o que é fé, conectando-a exclusivamente com nossa relação de amor às pessoas, ao bem coletivo, tenhamos ou não convicções religiosas.


Esse homem cumpre seu papel de amor sendo  exemplo de amor, a trancos e barrancos, expondo fragilidades, medos, erros, tentando incansavelmente aliviar dores, como cada um de nós pode e deve fazer.


Ao ver essas imagens, eu não vejo Francisco sozinho. Vejo, ao contrário, um homem rodeado de compaixão ao lado de seu rebanho chamado gente. E esse gesto amoroso me alcança, me toca, me afaga neste momento tão duro e isso me relembra minha capacidade, ou mais, meu poder de também amar e acalentar. Essa chama que, para mim, se chama Deus.


Pandemia, 27/03/2020

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Sertão


 

    Não é um desgosto, pelo contrário, há ali muitas fibras tecidas no querer. Nem é um desencanto como espera que não se cumpre. Concretamente, esperas nem sequer houve. Nem é, tampouco, a perda do que antes fora, pois há sempre um estado de um contínuo permanecer que se renova.

Na verdade , trata-se de um estranhamento, um desajuste, na melhor expressão. Simplesmente, uma peça que não se encaixa no último espaço do tabuleiro, não tendo sido ela feita de fato para encaixes:  una, exclusiva, em seu começo e fim de objeto ser.

Talvez esteja no vento que vira a folha, no sol  que clareia e traduz mais conhecimento e vida; ou na chuva que apenas chove, porque é época de chover, haja ou não as sementes lançadas ao solo.

É um algo de desarranjo num todo que se harmoniza. Sem destino a chegar, tudo é um estado de fluência para algum lugar. 

E nada se quer, mas se obtém. E nada se dá, mas se completa. 

Sem previsões de necessidades, de abundâncias ou explicações, apenas é.