CORPO
Viemos ao mundo pelo corpo e o corpo precisa
de um seu lugar.
Passamos todo o nosso tempo a procurar
esse lugar.
Achamo-lo num único suspiro.
E esse instante é que é toda uma vida.
Maria Taciano
O meio, o fim e o início em total desordem.
CORPO
Viemos ao mundo pelo corpo e o corpo precisa
de um seu lugar.
Passamos todo o nosso tempo a procurar
esse lugar.
Achamo-lo num único suspiro.
E esse instante é que é toda uma vida.
Maria Taciano
COM AMOR E FÚRIA
Filme de Claire Denis
A primeira ideia que se tem é a de que se trata de mais uma história sobre triângulo amoroso. Mas, a meu ver, aquele triângulo clássico não há ali, não.
Pode-se dizer que o filme dirigido por Claire Denis fala de muitas questões profundas que envolvem relacionamentos entre pessoas que têm entre si uma ligação amorosa de qualquer natureza. E tudo que advém disso mais a sociedade e seus valores e esse tubo de ensaio de gente e vida.
Primeiramente, é imprescindível ressaltar as atuações de Juliette Binoche e Vincent Lindon e a habilidade de a diretora tirar deles o que havia de melhor. A verdade de suas atuações nos toca a pele, os sentidos mesmo, a ponto de percebermos o frio da água, o ambiente sufocante do apartamento na volta de uma viagem idílica, o odor variável do sexo nas diferentes circunstâncias emocionais dos amantes envolvidos.
O que me deu a sensação de a história não tratar precisamente de um triângulo amoroso de duas pessoas que se descobrem amando e o impedimento de um terceiro indivíduo nessa relação foi que, por mais da metade do filme, quem está nessa instabilidade pela volta de um antigo amor (François) é exclusivamente Sara. É pelos olhos dela que o enxergamos, é ela que, nas perguntas ao marido, vai narrando os enredos que ela deseja, num desejo projetado no esperado desejo do outro. Esse outro, por sua vez, torna-se extremamente presente, antes mesmo de o personagem de François em "carne e osso" ter a sua existência efetiva em cena. O expectador não tem conhecimento de quem ele é senão por esse olhar de expectação dela e pelos lampejos de existência dele, como uma espécie de fantasma (para ela e para nós).
Essa sensação de Sara, materializada nesse recurso inteligente da diretora (a presença sem presença), se põe em contraposição com a realidade crua do marido Jean e sua gentileza sofrida, com todos os seus problemas de fragilidade econômica, insegurança quanto ao futuro do filho negro numa sociedade conservadora e racista, a sua falta de lugar por morar onde não se sentia em seu lugar, as dificuldades de recuperação de cidadania por ser um ex presidiário e a sua submissão em relação ao amigo, sabido ex grande amor da esposa, e que lhe aparece como uma oportunidade de se recolocar como homem e como profissional.
É um casal, portanto, que se identifica nesse lugar de ambos estarem numa situação de submissão diante de um senhor comum personificado no antigo amigo que volta às suas vidas. Pode-se vislumbrar no comportamento do casal, diante desse "retorno do passado", até relações abusivas nos diferentes arranjos Sara/François e Jean/François, muito embora isso não se revele de forma concreta, mas por meras ilações, de vez que, no curso do filme, não sabemos se temos algo efetivo desse homem misterioso senão por conclusões que tiramos, assim como os personagens com ele envolvidos.
A contação do enredo é brilhante! Contrariamente a esse brilho, tem-se a diminuída nitidez das imagens. De fato, nitidez é tudo o que não há quando se instala (ou já se apresenta instalado, mesmo sem saber) esse caos emocional de tantas vertentes e cuja lanterna é uma tal força de amor lanhada por insatisfações naturais da convivência, da intimidade de muito tempo, dos longos relacionamentos, sejam estes quais forem. É muita desproporção.
Outro elemento que me pareceu revelador dessa confusão de perspectivas emocionais é o fato de somente dois personagens, Sara e Marcus (afora os figurantes de cena aberta para ambientarem o momento histórico em que transcorria o enredo), usarem, nas cenas de rua ou de chegada do ambiente externo, as máscaras da pandemia. Tais personagens são os estigmatizados, os mais fragilizados e suscetíveis às imposições das circunstâncias da vida e dos valores conservadores sociais: ela, a mulher, casada, que ama, que deseja, e ele, o menino adolescente, negro, da periferia, que tem que pensar antes na sua cor para escolher uma profissão, aos quinze anos de idade. É um misto de sufoco e de dificuldade de fala.
É um filme visceral e belíssimo que merece ser visto com entrega. É um filme sobre a vida de qualquer um, sobre paixão, o "crème de la crème" de se sentir vivo. E todo o medo, coragem, amor e fúria que isso envolve.
Recomendo, pelo menos, três vezes. <3
Maria Angélica Taciano
Para quem não viu o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, porque não tem interesse pelo tema da ditadura, posso dizer que o filme me surpreendeu justamente pelo tema tratado ali, que é o afeto. É um filme de amor.
O título das obras (filme e livro) são reveladores da ausência que nunca acaba ou da inextinguível presença que não se confunde com saudade. Essa ausência, esse estado de sem corpo abrupto e eterno que a Ditadura impôs a tantas famílias, retirou lhes até isso, o direito à saudade. Vagam todos na eterna espera de não se sabe o quê.
O assunto do filme seria mais uma canção em nossos ouvidos sobre a chaga aberta da Ditadura, se não houvesse nele, talvez, o olhar genial do diretor Walter Salles em pura empatia com o sentimento do autor do livro, Marcelo Rubens Paiva, conseguindo retratar, com delicadeza, assunto tão árduo sem lhe retirar um pingo da seriedade e importância.
O filme, em suma e ao que parece, conseguiu transpor a porta blindada da naturalização dos anos de chumbo feita pela mídia e pelo poder dominante, que criou um falso distanciamento de nossa realidade contemporânea com aquela realidade brutal que o pais viveu por décadas. Como se todo o horror tivesse sido ou pudesse ser esquecido pelo país e suas novas gerações.
Se os golpes de Estado recentes, consumados e frustrados, mostraram que a apresentação da verdade sobre a Ditadura não conquistou as mentes, a ousadia obstinada do filme perverteu essa dinâmica ao se apresentar com a coragem de conquistar corações, em terras tão cevadas pelo ódio.
Isso se dá quando o filme coloca a vida, os afetos, as relações comuns de uma família como outra qualquer sendo estraçalhadas pelas botas cruéis e assassinas da ditadura, por agentes sem nome e de caras feias, por dores de suplícios corporais e emocionais das torturas físicas e mentais, e tudo sem qualquer motivo explicável. A flor contra o canhão.
Quem, mesmo não sendo militante político ou sequer tendo nascido naquela época, não se viu representafo naquela família de almoços de domingo, de um pai trabalhador e amoroso, de um marido atencioso, de uma mãe alegre e viva, de irmãos e seus risos e rusgas infantis, de animais de estimação adotados?
De repente, essa "sua" família é assolada por uma violência totalmente desconhecida de sua realidade. E tudo fica escuro no filme e dentro do peito e todos não têm como não perceber que a Ditadura é essa escuridão.
Que falta fazem aquele pai, aquela mãe, aquela família que já não somos! O personagem de Selton Mello, o Rubens Paiva, macio com seu porte bonachão, sorriso e olhar inocentes, não sai de dentro de nós, está o tempo todo presente ausente. E nós viramos a mâe, nós viramos Eunice a esperar sabendo que não terá fim essa espera.
É muita identificação!
Esse filme é imprescindÍvel por esse chamado, esse esclarecimento não apenas dos fatos particulares e reais daquela família e do "fato da sangrenta Ditadura" que nos assolou por tantos anos, mas o é principalmente por fazer brotar, a partir do sentimento, do afeto, a repulsa genuína e incontornável por tudo o que é autoritário. Ninguém consegue ousar defender ditadura depois desse filme. Talvez somente eles, os Ditadores execráveis de sempre.
E, por tudo isso, é bom ver que as salas são tomadas por muitos jovens e que as lágrimas, que são inevitáveis seja pela lembrança, seja pelo inédito conhecimento dessa tristeza, seja pela beleza que se torna feiúra, seja pela beleza da história narrada e encenada, são agora uma força comum e compartilhada.
A gente sai da sala de cinema com uma fome de abraços e de Democracia, convictos de que levamos a marca inevitável que nos identifica: ainda estamos todos juntos aqui e ditadura nunca mais. Entenderam?
Maria Angélica Taciano
#aindaestouaqui#oscar2025
AS ÁRVORES DA PAZ E A OUSADIA DO PERDÃO
O belíssimo filme As Árvores da Paz, NETFLIX, retrata, por meio do olhar de quatro personagens, o horror do genocídio ocorrido em Ruanda, no conflito entre as etnias hutu e tutsi, na década de noventa.
As condições peculiares vividas por essas quatro personagens sintetizam, em falas, expressões corporais, circunstâncias extremas, íntimas e externas, o horror da cegueira da humanidade e da violência brutal que com esta advém, e que culminam por colocar irmãos contra irmãos, um povo contra si mesmo.
O filme não recorre a registros de violência explícita, muito pelo contrário, centraliza o discurso em quatro mulheres que vão traduzindo toda a violência histórica de países ricos contra países pobres ( ou por aqueles empobrecidos) e o limite de desumanização que essa desigualdade promove.
Reclusas, durante meses, em um minúsculo cômodo de dispensa sob o chão de uma cozinha (onde se passa todo o filme), para se esconderem do horror, essas quatro personagens vivenciam o medo, a fome, privações fisiológicas, as atrocidades cometidas contra civis, compartilhando, entre si, na solidariedade como último refúgio de sanidade e dignidade, as fundas feridas que cada qual também já trazia por conta de uma ordem social atroz que consegue ser tão violenta contra vulneráveis quanto as milícias insanas que vinham dizimando civis, antigos amigos, colegas, professores, vizinhos...
Essas mulheres, ao fim, representam diferentes segmentos étnicos e sociais de qualquer parte do mundo e, no entanto, ali, revelam que não há diferenças entre gentes, em suas dores e esperanças.
Embora trate de um tema profundamente triste, tomando Ruanda como um exemplo de ignomínia, dentre tantos, a película é profundamente sensível, exaltando a nobreza de gestos e sentimentos, "sementes para a paz", e ditada pelo ritmo, fases e voz das mulheres.
Não à toa.
Até a edição do filme (2021), Ruanda se posicionava como o país a ter mais mulheres, no mundo, em postos de poder. No processo de pacificação e democratização do país, foram desenvolvidos tribunais populares que buscam a reconstrução da confiança entre cidadãos, tentando recompor a ideia de unidade de um povo. Esses tribunais são promovidos e mediados, em sua maioria, por lideranças femininas, o segmento mais violado nesses conflitos, e têm usado o "perdão"como instrumento político de unificação e compreensão Histórica das causas do conflito.
Um filme muito bom, sensível e necessário para reflexão sobre as chagas do ódio entre um mesmo povo e a ousadia do perdão como cura.
Maria Angélica Taciano
Eu tive dó
Da mulher condenada pela lente
Ao banco dos réus
Por um juízo de "lives"
Que nada tem a ver com vidas
Morto, a propósito, o velho
Outra vez, no velho Banco
Teve de novo negado
Como na vida
Seu último pedido de socorro
Tive dó do velho morto
Exposto ao escárnio
Dos que, pior que ele, mortos já são
E que não têm de bancos senão
Dívida e expropriação
Mas se preocupam se o Banco
perde aos mortos um seu milhão
E da mulher, mais sábia que eles
Que já não distingue morte e vida
Tive dó
Tenho dó
De todos nós à deriva
De todos em busca de algo
E de alguns tostões de atenção
Mortos à própria sorte
Vagando feito vivos
E tão vivos , por outro lado
O Banco e homens de toga
Ninguém duvida
Juízes a condenarem à morte um país
Mas sem lentes para os julgar
Nem olhos para ver ou entender
O mútuo que fazem com a vida de todos
Com suas palavras em azeite
O velho
Embalsamado só na vergonha,
Tanto humilhado na vida
Implora ao banco um último respiro
Quem sabe a salvar a filha
Aquela que sem saber
Não mais podia distinguir a morte e a vida
E muito antes dele jazia.
Tive dó
O filme francês Anatomia de Uma Queda, da diretora Justine Triet, e com atuações pungentes, brilhantes, sobretudo de Sandra Hüller, é arrebatador!
Retratando a história da suspeita sobre a morte do marido de uma escritora e o julgamento desta como "possível autora de um possível crime', começo por dizer que não é mais um filme sobre tribunais e assassinatos. Tais elementos servem apenas como palco para a apresentação de questões muito mais intrincadas que transformam a fria dinâmica do ambiente judiciário ali retratado numa verdadeira ágora ou num complexo divã.
Já de início o que se vê é que a primeira queda é a da verdade. Tudo é dúvida.
Na busca de se qualificar um fato extremamente duvidoso como um crime certo, o que se vê, no decorrer da trama, é a distorção e construção de versões na defesa ferrenha dos diferentes entendimentos de uma teórica verdade. A verdade, que deve ser apenas colhida como flor que desabrocha natural, passa, assim, a ser criada e colocada como um prêmio a um vencedor, sendo submetida, nos tensos e excitantes momentos das cenas no tribunal, a uma carga de velhos preconceitos sobre temas sensíveis (fidelidade/traição, relacionamento aberto, bissexualidade, patriarcado, inocência e culpa) que permeiam as conhecidas formas de julgamentos moralizantes de nossa sociedade.
Esse emblemático ambiente da Justiça tão sujeito a falha, tão indiferente à matéria gente, tão cego da verdade, tão desconcertado diante da dúvida, é representado, principalmente, nas figuras das personagens do jovem promotor com sua lógica, por vezes, distorcida, e da burocrática juíza, ambos ávidos para verem coroadas a sua predisposição particular à compreensão dos fatos. A uma criança cega - e essa simbologia é genial! - coube o papel de relembrar aos doutos guardiães do bem e do mal social qual é o verdadeiro sentido de Justiça.
No entanto, é no transcorrer do dia a dia, na intimidade recôndita das personagens centrais, que a anatomia se dá de forma paulatina e profunda, revelando as mazelas e demônios dos indivíduos nas suas relações com os outros e consigo mesmos, diante da incapacidade de lidar com questões demasiado humanas e que podem levar qualquer um a quedas, como a intransponível sensação de fracasso pessoal, experimentada pelo personagem do marido Samuel, ou a impossibilidade de reconexao do casal assolado por mágoas, disputas, desconfiança, delimitando os vários territórios e "línguas" dentro de uma família.
Nessa hora, nós, os espectadores, somos envolvidos por essas circunstâncias humanas, nossas velhas conhecidas, e, sem perceber, deixamos de ter um lado na história e vemos somente a dor da tragédia que tocou nas vidas daquelas pessoas, que não têm sequer a oportunidade e o tempo para se dedicarem ao seu luto.
A essa altura do filme, está consumada a anatomia evocada no título e que vai muito além da literalidade que inicialmente se supõe. Nada é mais desequilibrante do que dissecar fragilidades, fraquezas e ambiguidades num espelho que se quebra diante de todos ou diante daqueles para quem gostaríamos de ter o nosso melhor reflexo.
As razões das quedas, que qualquer ser vivente sobre a terra pode conhecer e reconhecer, ao fim as sentimos escorrendo pela nossa face e caindo em gotas num abismo de encanto e susto regidos por uma trilha sonora belíssima que completa a grandeza da obra prima apresentada pela diretora. E o último abraço do filme não nos deixa sentir menos que isso.
Maria Taciano
TRABALHADORES, UNI-VOS CONTRA A GUERRA!
A profusão de imagens do horror em Gaza, penso eu, terá um efeito contrário ao que se pretende.
Se a situação fosse contada e contada, para que a capacidade da imaginação desenhasse o horror, na medida do que é horror para cada um, quem sabe se pudesse pensar que a situação se aproximasse mais, e de fato, ao humano de cada qual.
No quesito de credibilidade, tanto a imagem quanto a contação verbal dos fatos ocupam o mesmo lugar de aceitação da verdade. Hoje, cada um acredita no que quer, diante da mais incontestável evidência.
Nós tivemos 700 mil mortos, no Brasil, pelo descaso na administração da COVID por um governo, de então, igualmente genocida quanto o de Israel. Além de pauta para notícia de alguns veículos de imprensa e indignação para os de sempre, nada de concreto se viu ou vê para punir os responsáveis pela morte de tanta gente. Vamos esquecendo... A estatística crescente e diária do número de mortos foi-se tornando uma rotina e, em vez de aproximar, nos afastou da dor do outro.
Mas como a bomba da COVID podia explodir em qualquer um, a reação requereu efetividade e direção objetiva contra a ação destrutiva do inimigo. Para o anticiência, tascamos-lhe Ciência e a vacina veio contrapor a rapsódia de morte orquestrada por quem da morte vive.
E qual é a vacina contra Netanyahu, para um tal enfrentamento efetivo? É o dinheiro.
Assim, de novo, o confronto se dá entre a riqueza e a produção de riqueza. Contra o vírus sionista, somente um constrangimento popular sobre os governos dos países, para que tomem medidas efetivas para frear a sanha assassina de Israel, é eficiente. Por ele de novo, por aquele que tem força e deixa de usá-la é que se dá o caminho para tombar a praga fascista representada, no grau máximo, no genocídio perpetrado em Gaza e imediações. É pela paralisação de toda e qualquer produção de riquezas que a mais letal resistência se fará.
Braços cruzados da classe trabalhadora, que produz riqueza, paremos o mundo todo pela paz e pela responsabilização de quem a perturba! Sindicatos, movimentos, organizem-se para parar o dinheiro no mundo, por um dia que seja, e veremos Netanyahu e afins se desintegrarem como poeira ou como os prédios que eles derrubam sobre a cabeça de inocentes.
Assim, mais uma vez, a vida conclama: "trabalhadores, uni-vos", inoculando o antidoto no âmago do causador de todas as guerras e amarguras: o capitalismo.
Junto com nossa voz, que estejam os braços também!
#FreePalestine
Maria Taciano
Faz um tempo que não visito o meu amor. A peste contemporânea ampliou as distâncias e reinventou formas de amar que ainda estranhamos. Faz tempo que não vivo o meu amor por você.
Lembro, saíamos de mãos dadas vagando, misturando-nos à multidão das ruas...
Em calçadas bonitas de bairros protegidos ou nos lugares da ausência de Estado e de calçadas, ali nas quebradas, vivíamos nosso amor errante, sem previsão de programas, tempo e temporal. (Quantas vezes nos amamos sob marquises aguardando o cessar da chuva e dividindo espaço com aqueles que fazem do amor um outro negócio, que também faz parte desse nosso amor! Como não?)
Passeávamos por culturas, uma inusitada comida, uma festa ou uma passeata de ciclistas nus levando flores ao túmulo da outra, que foi atropelada pelo ódio, na via exclusiva de ciclistas. E no lusco fusco de poente com fumaça, íamos nos levando, recebendo a noite entre tiroteio e cachaça.
Chegávamos em casa na madrugada e ainda nos pendurávamos junto à janela esperando sabe-se o quê, com olhos ávidos na vida vista do alto do edifício, de sob o viaduto ou das estrelas que ainda piscavam no ar. E topávamos com essa vida que também já vinha correndo. em sentido oposto à madrugada que termina para a madrugada que começa em trens, ônibus, metrôs, lojas acendendo o dia para mais um outro dia.
Eu sempre perdi para o sono, pondo nosso amor em espera. Você não, você nunca dorme, cuidando em vigília para continuar e continuar nesse seu compasso sem parada e de todos os ritmos.
Hoje vi você festejada. Percebi que já não tem o mesmo talhe de altivez, juventude e irreverência. Finalmente, está mais velha, um tanto decaída pela convivência mais brutal da dor e alegria destes tempos mais hostis que cimento.
Mas você ainda carrega todo o seu charme e o meu amor meio cansado. Ah, esses avessos infinitos em que nos desdobramos para dançar nos seus braços e nos sentirmos pertencidos à sua dureza, realidade e sonho! Qual!
Parabéns para você, pelo seu aniversário e por, apesar de todo o tempo e reviravolta da vida e da morte, não deixar de prosseguir sendo você e eu e todo o mundo que você carrega como dom e como sina.
Parabéns, São Paulo, a grande Sampa de todos os afetos e dos meus afetos.
São Paulo, 25/01/2022 ❤️
Lembro da indicação do Papa Francisco e sua eleição e que muitos amigos, não só de aqui desta rede, lógico de convicções políticas progressistas, mas de vivência de vida real criticaram minha expressão de grande esperança por sua jornada. Muitos relacionando sua suposta contribuição para o regime ditatorial na Argentina.
Na época, ponderei que acreditava no poder do arrependimento e que seu histórico mais recente indicava um sacerdote completamente comprometido com a causa dos pobres e necessitados. Logo após, vi o aval de Leonardo Boff e, então, pronto, fui dormir em paz.
Confesso que o fato de ele escolher o nome Francisco e ser Argentino ( quem me conhece de perto sabe o imenso apreço que tenho por essa gente, que, recentemente, mostrou sua capacidade aguerrida de recuperar seu norte com a eleição de um governo de esquerda, depois de um baita erro e, assevere-se, sem golpe e sem perder a democracia. E, além disso, tem Maradona e Gardel e o tango...) influenciaram muito meu olhar condescendente. Mas não foi só isso.
Bem, já conheci algumas religiões e cheguei à minha própria conclusão de que elas não são a representação do divino, mas uma construção humana com todas as falhas e erros dos homens, em sua eterna relação de poder e medo. Minha ligação de fé é direta com Deus e Jesus e a natureza. Sim, sou uma simpatizante comunista que acredita em Deus.
Então, por que motivo meu encantamento com esse líder espiritual?
Justamente por esse seu olhar para as misérias humanas, todas e não só a material.
Ele é um cara que traz Jesus pra terra, como tão bem relatou o samba enredo da Mangueira. Um cara que reensina o que é fé, conectando-a exclusivamente com nossa relação de amor às pessoas, ao bem coletivo, tenhamos ou não convicções religiosas.
Esse homem cumpre seu papel de amor sendo exemplo de amor, a trancos e barrancos, expondo fragilidades, medos, erros, tentando incansavelmente aliviar dores, como cada um de nós pode e deve fazer.
Ao ver essas imagens, eu não vejo Francisco sozinho. Vejo, ao contrário, um homem rodeado de compaixão ao lado de seu rebanho chamado gente. E esse gesto amoroso me alcança, me toca, me afaga neste momento tão duro e isso me relembra minha capacidade, ou mais, meu poder de também amar e acalentar. Essa chama que, para mim, se chama Deus.
Pandemia, 27/03/2020