AS ÁRVORES DA PAZ E A OUSADIA DO PERDÃO
O belíssimo filme As Árvores da Paz, NETFLIX, retrata, por meio do olhar de quatro personagens, o horror do genocídio ocorrido em Ruanda, no conflito entre as etnias hutu e tutsi, na década de noventa.
As condições peculiares vividas por essas quatro personagens sintetizam, em falas, expressões corporais, circunstâncias extremas, íntimas e externas, o horror da cegueira da humanidade e da violência brutal que com esta advém, e que culminam por colocar irmãos contra irmãos, um povo contra si mesmo.
O filme não recorre a registros de violência explícita, muito pelo contrário, centraliza o discurso em quatro mulheres que vão traduzindo toda a violência histórica de países ricos contra países pobres ( ou por aqueles empobrecidos) e o limite de desumanização que essa desigualdade promove.
Reclusas, durante meses, em um minúsculo cômodo de dispensa sob o chão de uma cozinha (onde se passa todo o filme), para se esconderem do horror, essas quatro personagens vivenciam o medo, a fome, privações fisiológicas, as atrocidades cometidas contra civis, compartilhando, entre si, na solidariedade como último refúgio de sanidade e dignidade, as fundas feridas que cada qual também já trazia por conta de uma ordem social atroz que consegue ser tão violenta contra vulneráveis quanto as milícias insanas que vinham dizimando civis, antigos amigos, colegas, professores, vizinhos...
Essas mulheres, ao fim, representam diferentes segmentos étnicos e sociais de qualquer parte do mundo e, no entanto, ali, revelam que não há diferenças entre gentes, em suas dores e esperanças.
Embora trate de um tema profundamente triste, tomando Ruanda como um exemplo de ignomínia, dentre tantos, a película é profundamente sensível, exaltando a nobreza de gestos e sentimentos, "sementes para a paz", e ditada pelo ritmo, fases e voz das mulheres.
Não à toa.
Até a edição do filme (2021), Ruanda se posicionava como o país a ter mais mulheres, no mundo, em postos de poder. No processo de pacificação e democratização do país, foram desenvolvidos tribunais populares que buscam a reconstrução da confiança entre cidadãos, tentando recompor a ideia de unidade de um povo. Esses tribunais são promovidos e mediados, em sua maioria, por lideranças femininas, o segmento mais violado nesses conflitos, e têm usado o "perdão"como instrumento político de unificação e compreensão Histórica das causas do conflito.
Um filme muito bom, sensível e necessário para reflexão sobre as chagas do ódio entre um mesmo povo e a ousadia do perdão como cura.
Maria Angélica Taciano
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