quinta-feira, 21 de novembro de 2024

A Flor e o Canhão em "Ainda Estou Aqui".

 

Para quem não viu o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, porque não tem interesse pelo tema da ditadura, posso dizer que o filme me surpreendeu justamente pelo tema tratado ali, que é o afeto. É um filme de amor.

O título das obras  (filme e livro) são reveladores da ausência que nunca acaba ou da inextinguível presença que não se confunde com saudade. Essa ausência, esse estado de sem corpo abrupto e eterno que a Ditadura impôs a tantas famílias, retirou lhes até isso, o direito à saudade. Vagam todos na eterna espera de não se sabe o quê.

O assunto do filme seria mais uma canção em nossos ouvidos sobre a chaga aberta da Ditadura, se não houvesse nele, talvez, o olhar genial do diretor Walter Salles em pura empatia com o sentimento do autor do livro, Marcelo Rubens Paiva, conseguindo retratar, com delicadeza, assunto tão árduo sem lhe retirar um pingo da seriedade e importância. 

O filme, em suma e ao que parece, conseguiu transpor a porta blindada da naturalização dos anos de chumbo feita pela mídia e pelo poder dominante, que criou um falso distanciamento de nossa realidade contemporânea com aquela realidade brutal que o pais viveu por décadas. Como se todo o horror tivesse sido ou pudesse ser esquecido pelo país e suas novas gerações.

Se os golpes de Estado recentes, consumados e frustrados, mostraram que a apresentação da verdade sobre a Ditadura não conquistou as mentes, a ousadia obstinada do filme perverteu essa dinâmica ao se apresentar com a coragem de conquistar corações, em terras tão cevadas pelo ódio.

Isso se dá quando o filme coloca a vida, os afetos, as relações comuns de uma família como outra qualquer sendo estraçalhadas pelas botas cruéis e assassinas da ditadura, por agentes sem nome e de caras feias, por dores de suplícios corporais e emocionais das torturas físicas e mentais, e tudo sem  qualquer motivo explicável. A flor contra o canhão.

Quem, mesmo não sendo militante político ou sequer tendo nascido naquela época, não se viu representafo naquela família de almoços de domingo, de um pai trabalhador e amoroso, de um marido atencioso, de uma mãe alegre e viva, de irmãos e seus risos e rusgas infantis, de animais de estimação adotados?

De repente, essa "sua" família é assolada por uma violência totalmente desconhecida de sua realidade. E tudo fica escuro no filme e dentro do peito e todos não têm como não perceber que a Ditadura é essa escuridão.

Que falta fazem aquele pai, aquela mãe, aquela família que já não somos! O personagem de Selton Mello, o Rubens Paiva, macio com seu porte bonachão, sorriso e  olhar inocentes,  não sai de dentro de nós, está o tempo todo presente ausente. E nós viramos a mâe, nós viramos Eunice a esperar sabendo que não terá fim essa espera.

É muita identificação!

Esse filme é imprescindÍvel por esse chamado, esse esclarecimento não apenas dos fatos particulares e reais daquela família e do "fato da sangrenta Ditadura" que nos assolou por tantos anos, mas o é principalmente por fazer brotar, a partir do sentimento, do afeto, a repulsa genuína e incontornável por tudo o que é autoritário. Ninguém consegue ousar defender ditadura depois desse filme. Talvez somente eles, os Ditadores execráveis de sempre.

E, por tudo isso, é bom ver que as salas são tomadas por muitos jovens e que as lágrimas, que são inevitáveis seja pela lembrança, seja  pelo inédito conhecimento dessa tristeza, seja pela beleza que se torna feiúra, seja pela beleza da história narrada e encenada, são agora uma força comum e compartilhada.

A gente sai da sala de cinema com uma fome de abraços e de Democracia, convictos de que levamos a marca inevitável que nos identifica: ainda estamos todos juntos aqui e ditadura nunca mais. Entenderam?

Maria Angélica Taciano

#aindaestouaqui#oscar2025

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Senta que lá vem resenha de filme: As Árvores da Paz"

 AS ÁRVORES DA PAZ E A OUSADIA DO PERDÃO


O belíssimo filme As Árvores da Paz, NETFLIX,  retrata, por meio do olhar de quatro personagens, o horror do genocídio ocorrido em Ruanda, no conflito entre as etnias hutu e tutsi, na década de noventa. 


As condições peculiares vividas por essas quatro personagens sintetizam, em falas, expressões corporais, circunstâncias extremas, íntimas e externas, o horror da cegueira da humanidade e da violência brutal que com esta advém, e que culminam por colocar irmãos contra irmãos, um povo contra si mesmo.


O filme não recorre a registros de violência explícita, muito pelo contrário, centraliza o discurso em quatro mulheres que vão traduzindo toda a violência histórica de países ricos contra países pobres ( ou por aqueles empobrecidos) e o limite de desumanização que essa desigualdade promove. 


Reclusas, durante meses, em um minúsculo cômodo de dispensa sob o chão de uma cozinha (onde se passa todo o filme), para se esconderem do horror, essas quatro personagens vivenciam o medo, a fome, privações fisiológicas, as atrocidades cometidas contra civis, compartilhando, entre si, na solidariedade como último refúgio de sanidade e dignidade, as fundas feridas que cada qual também já trazia por conta de uma ordem social atroz que consegue ser tão violenta contra vulneráveis quanto as milícias insanas que vinham dizimando civis, antigos amigos, colegas, professores, vizinhos...


Essas mulheres, ao fim,  representam diferentes segmentos étnicos e sociais de qualquer parte do mundo e, no entanto, ali, revelam que não há diferenças entre gentes, em suas dores e esperanças. 


Embora trate de um tema profundamente triste, tomando Ruanda como um exemplo de ignomínia, dentre tantos,  a película é profundamente sensível, exaltando a nobreza de gestos e sentimentos, "sementes para a paz", e ditada pelo ritmo, fases e voz das mulheres.


Não à toa. 


Até a edição do filme (2021), Ruanda se posicionava como o país a ter mais mulheres, no mundo, em postos de poder. No processo de pacificação e democratização do país, foram desenvolvidos tribunais populares  que buscam a reconstrução da confiança entre cidadãos, tentando recompor a ideia de unidade de um povo. Esses tribunais são promovidos e mediados, em sua maioria, por lideranças femininas, o segmento mais violado nesses conflitos, e têm usado o "perdão"como instrumento político de unificação e compreensão Histórica das causas do conflito.


Um filme muito bom, sensível e necessário para reflexão sobre as chagas do ódio entre um mesmo povo e a ousadia do perdão como cura.


Maria Angélica Taciano