sábado, 8 de novembro de 2014

Salmo 0



Salmo 0

“Todo mundo tem um dom. O grande pecado é trair seu dom.”
João Ubaldo Ribeiro


Não orientarei sentimentos, indicando portas por que devam entrar ou caminhos que devam evitar.
Trago sentimentos do mais livre arbítrio, que vivem do seu sentir ou, se não, recolhem-se, inteiros, em silenciosa verdade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Gênese

Havia perdido as certezas. Eram já poucas as que tinha, mas agora acabava de perdê-las de vez.
Tentou explicar o fato à mulher que, distraída com sua revista, perguntou-lhe a pergunta fatal:
- Quais certezas?
E, subitamente, ele se viu caindo uma queda sem fim nem começo numa espécie de buraco negro de ideias. Descobria, então, se descoberta se pudesse chamar, que suas poucas certezas, ali, sempre a seu lado, tornaram-se absolutamente indistinguíveis, indecifráveis. Não sabia se, sequer, chegaram a existir. A própria inexistência também se lhe apresentava duvidosa: inexistiriam as próprias certezas em sua existência material ou inexistiriam em sua existência ideológica?
Por costume ou por uma espécie de atavismo trazido da convicção das certezas ainda que parcas, iluminou-se nele, em lampejo, um certo alívio ou um quê de contentamento ao supor que fossem talvez suas certezas como uma deidade a quem ninguém define ou prova a existência, mas sabe que, de alguma forma, ela é.
Sim, eram esses os sintomas do insondável existir de suas certezas, por isso tão poucas. Talvez, nem fossem poucas, mas uma única, onipresente, onisciente certeza.
Por algum momento, aquela certeza já ausente, assentada tão somente em um fio de sua lembrança, passou a ter uma forma estelar, universal e transcendental.
O homem olhou-se no espelho com tamanha e irreconhecida firmeza, seus olhos brilhavam com a luz da descoberta, do autoconhecimento e do alto conhecimento. Estava quase em estado de êxtase existencial e tudo a seu redor pareceu menor: a revista, a mulher, a imagem refletida no espelho, o livro fatídico aberto no colo...Era um deus a levitar.
Porém, deleitando-se nesse território divino, algo lhe pareceu estranho.   Pois se suas certezas tão indecifráveis o jogavam em um plano de divindade, elas de fato e inexoravelmente o tinham abandonado, uma vez que o suporte do divino é a crença e esta, por mais encravada que seja, é essencialmente feita do barro da - e a palavra lhe saiu quente e caudalosa como lava de vulcão - dúvida.
Num átimo, percebeu que, na verdade, estava a enaltecer mais a memória falecida da ausente certeza do que a tragédia de sua perda e, diante dessa constatação, operou-se, enfim, o completo preenchimento de seu vazio por toda dúvida.
E naquela noite, como nunca havia feito, dormiu um sono solto, largado, embalado na sua entrega de nada ter de saber ao certo. Enfim, apenas não tinha certezas.

Talvez, quem sabe, o dia seguinte amanhecesse.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

VIP




Um dia você vai entender
o meu jeito de, 
não sendo,
ser até um pouco sua
que não faço da liberdade
um mote de protesto, 
ao contrário, 
ela é um modo de ternura
E que só na sua cabeça,
que tão débil me contesta,
meu amor alardeado 
e essa febre de viver
não têm grife e compostura
e não entram na sua festa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Avesso


Eles não combinavam
em quase nada, admitiam.
Mas inexplicável tamanha vontade, 
aquele querer entorpecente
de um com o outro descombinar.

domingo, 14 de setembro de 2014

Vento do Norte



Ela agarrou seu braço, no limiar da porta, e em tom de rouca súplica, lhe perguntou:

- Mas não disse que, comigo, você finalmente estava em paz?

Ele reuniu forças e olhou em seus olhos com uma consternação, que revelava tanto gratidão quanto desconcerto, e lhe respondeu:

- Sim, mas não feliz. 

E retomou a incerta estrada, na direção do dia que amanhecia.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um Homem que não se chamava Baudelaire” (*)


Para você, com carinho.


"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça  alguma coisa de melhor."
(O diário de Antônio Maria)

                                        
                                         

Por que Antônio Maria, se você e ele aparentavam temperamentos tão distantes? Ele, um homem popular, falastrão, cheio de amigos. Você, um cara reservado, de palavras poucas e precisas. Quase nada popular.

Ardia em ambos, contudo, a identidade no refinamento do humor, na extrema sagacidade e na profunda solidão, a solidão, esse rio manso, de águas escuras e fundas em que poucos ousam mergulhar.

Você sempre citava Antônio Maria, mencionando suas crônicas esportivas, sua inteligência, a beleza de sua música, seu bolero. Você dizia de Antônio Maria para dizer de si mesmo. Nele você se revelava e, em você, ele se ocultava.

Homens lapidados na noite, na boemia e dotados de extrema poesia por vezes incompreendida, as duas figuras tiveram o melhor de suas vidas cantadas por terceiros, denunciantes encantados. Muitos destes forjaram suas próprias histórias a partir dessa magia.

Completamente amplos no sacrifício pelo amor -  um deixou-se devorar pela vida, e o outro, pela morte - partiram em plena elegia à sua solidão. Nem a derradeira despedida serviu de motivo bastante para romper esse pacto.

Porém, a sua arte da vida não é como a de Maria, que se imortalizou no merecido reconhecimento da matéria de sua estética. Não, a sua arte reverbera como um eco e como tal vai-se alastrando, perdendo sua força e contorno até emudecer...

Mas há algo nela que sobrevive por si, e em algum ponto, sem o compreender, ela é vivida, doída, captada num brilho fulgurante de olhos de menino como foram os seus até o fim. E, inusitadamente, um silêncio é rompido com um afinado e muito familiar assobio que sopra uma pérola musical do melhor repertório de amor dos anos 50, extraída “diretamente da Rádio Tupi”:

“Ninguém me ama,
Ninguém me quer,
Ninguém me chama
De Baudelaire.”

E a saudade vem como ondas de rádio.

(*Referência aos versos do samba-canção “Ninguém Me Ama”, de Antonio Maria e Fernando Lobo)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De amores e espumas



"- Para você, como se manifesta o amor?

Foi esta a pergunta que ela lançou a ele, assim, de repente, de frente para uma caneca de chopp. E ele, meio sem jeito, esforçou-se para responder, buscando inúmeras palavras que carregavam muito mais sentimento do que significado. A explicação, coitado, foi uma catástrofe, porém, havia muita verdade naquele seu não dizer.

Ele a amava muito mais do que ela imaginou até ali. Ele que nem era bom com palavras e que odiava essas demonstrações de “sentimentalismos” estava diante dela, tentando exprimir-se, esforçando-se para alcançar aquela mulher de temperamento tão singular.

Ela não ouviu metade das palavras ditas e, mesmo assim, aquele gesto tão verdadeiro e esforçado fez com que brotasse nela um remorso infinito: trazia consigo um indisfarçável regozijo de vê-lo daquela forma, finalmente, sangrando.


E quanto mais ele dizia e vasculhava seu limitado vocabulário, mais absorta estava ela em busca das palavras bem colocadas que não revelassem a ideia exata de amor que bem conhecia dentro de si, que talvez jamais tenha dedicado a ele e cuja definição, certamente, ele também lhe cobraria em contrapartida à sua inicial pergunta. Achou, enfim, a palavra certa e definitiva – era boa nisso - e então, por alguma espécie de amor, mentiu." 

(trecho das crônicas "Luas de Sabina"; Maria Angélica Taciano)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Despida




Não é de roupas que eu me dispo
O que me faz nua é a minha história,
verdade meio duvidosa
de crenças que carrego,
do meu medo de fantasma
e do atraso de minhas regras.

A minha nudez escancara (sem vergonha)
a minha coragem 
e a insegurança  infinita
de ter feito alguma coisa errada
e ficar pensando mil modos
de sobreviver depois das perdas

Já meu nu não tão exposto
anda muito além do que mostra,
vem de uma louca mistura,
de dores, alegria, revolta
Tem a força das grandes lutas
e a fragilidade da derrota.

Eu confesso que sou nua,
se estou cambaleante,
à beira do precipício,  
por um amor, uma dose a mais 
de whisky,
porque o telefone não tocou.

Sou nua no desespero 
assumido,
no feminino da insensatez,
nua na teimosia 
de começar tudo 
outra vez.

Não é de roupas que eu me dispo,
se quer mesmo minha nudez.
Ela não se faz de despojos 
de saias, meias, sapatos, 
calcinha,   
corpo lasso na cama.

Para ter minha nudez 
sem segredo 
há de ter uma certa empatia,
ser meio fêmea pelo avesso.
Seguir, mesmo com medo,
por ruas desconhecidas.


Então, ainda uma vez, eu lhe mostro:
não é de roupas que eu me dispo.
Apenas sem roupa,
sou apenas uma mulher sem roupa,
que depois que ama se veste,
fecha a porta e vai.
Esquece.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Natureza Viva

Queria ser fotografada
por um fotógrafo
que tivesse, em vez de máquina,
o coração na mão sua.
Mas não
Não sei se me deixaria revelar
dessa maneira,
assim tão nua.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

História Fora de Linha

Nossa história daria muitas linhas, mas preferiu seguir pelos vãos. Sem beijos apaixonados e o êxtase dos encontros abrasadores, nossa história se fez de mensagens subliminares, na fala de músicas, nos lampejos de um olhar que se fixava quando o outro já partia.
Nossa história aconteceu num movimento de gangorra, no intervalo tumultuado de dois trens que se cruzam.  Cores veladas de um retrato em preto e branco.
Nunca foi coisa de inventos como as grandes e loucas paixões. Andamos todo o tempo em busca de uma simples descoberta para chegar a um ponto de encontro, no meio da confusão polissêmica de nossos sentidos.
Impulsionados pelo potente motor do querer, hesitamos desorientados pelas orientações da dúvida. E mantivemos, um pro outro, tumular segredo de nós mesmos...
Tardias epifanias revelarão, do subtexto de nossa história, o que dela foi bom ou ruim? Quem sabe?
Nossa história foi, assim, uma literatura de entrelinhas.

terça-feira, 1 de julho de 2014

CILENE (in "Luas de Sabina")

"(...) Cilene dirigiu-se ao trabalho com sua rotineira caminhada pela cidade amanhecendo. Gostava da estranha sensação, um tanto inquietante, de ver  os contratastes daquela paisagem, a harmonia imponderável de feiuras e belezas, de grande e pequeno, formando um quadro exato, plenamente encaixado e, ao mesmo tempo, indecifrável. Uma feição única, quase o fruto de uma inspiração de artista em seus momentos de iluminação divina: efêmera e eterna. Uma imagem de uma Guernica muito própria, somada aos restos dos personagens da noite que já se iam, àquela hora, tomando a sua posição marginal, abrindo caminho para o cenário do dia e das legiões poderosas que marcham na vida diurna. A tragédia desumana, ardendo sob os bombardeios da realidade acelerada da cidade na busca de sonhos individuais ou, para quem não os mais ousa ter, a busca de um sono eterno com olhos abertos.

Ela, Cilene, sabe que é uma das figuras retratadas no psicodélico cenário. E, no entanto, em seu coração, mesmo representando uma adaptada caricatura das expressões aterrorizadas da tela de Picasso, sente-se inteira e, estranhamente, ela mesma. Cilene era parte do cimento e desarranjos e exclusões e belezas do centro da cidade de São Paulo. Ali era seu lugar.

Como havia tempo ainda para bater seu ponto na empresa, resolveu parar para tomar o café da manhã, num bar que dava de frente para a Bolsa de Valores. Ali, mesmo sozinha, não se sentia solitária como o fora em toda a sua vida até aquele ponto. Tudo parecia em mudança e tinha certeza de que gostaria delas, apesar de bastante assustada com isso.

No bar, a garçonete dirige-se à Cilene sorridente, mostrando familiaridade com aquela pessoa que era presença habitual nas manhãs :

- Café com espuma do leite, não é, senhora?

Cilene sorri e acena que sim e aguarda quieta, com o pensamento, olhos e alma distantes.

- Sabe que a senhora tem um admirador, aqui? Ele diz que se parece com artista de filme americano antigo. Sempre repara a senhora...

Cilene desperta assustada e olha ao redor a fim de descobrir de quem se trata.

- Ele já foi embora.- diz a garçonete –, mas vem aqui todos os dias tomar café também.


Mais tarde Cilene se lembraria dessa conversa e perceberia que tudo aconteceu tão alucinadamente que nunca veio a saber quem era esse tal admirador. Ficaria na saudade, na lembrança de bons tempos...  " 

(trecho do romance "As Luas de Sabina"; Maria Angélica Taciano)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

DIÁFANA


Vejo você debruçar uma braçada de margaridas sobre a pia da cozinha. Eu, sentada e calada, fito suas mãos grandes tratarem com tanto cuidado aquelas flores em espera. 
Meu olhar viaja pelo contorno de seus braços morenos, seu pescoço, seus lábios bem desenhados, o prateado de seus cabelos. Eu havia me esquecido de quanta beleza há em você.
No quase silêncio da cozinha, sinto o afago morno da sua presença misturado ao odor fresco das flores e ao barulho da água preguiçosa enchendo o pote. Você sussurra algo parecido a uma canção... Rompo esse quase silêncio e falo laconicamente de algum fantasma que me aflige, como costumava fazer, de menina,  rodeando-a em seus afazeres, ali, na mesma cozinha. Você, como de costume, ralha comigo: " - Deixa de bobagem, Maria Angélica!", fazendo pequeno o medo que você toma de mim para si. Baixo a cabeça, em sinal de acolhimento, e ponho, em meus cabelos, uma margarida perdida das outras. Você, generosamente, me dá um olhar de aprovação que se demora entre nós e eu me lembro, também, de como seus olhos são tão verdes!
O ritual do arranjo está quase no fim. Você recolhe o último ramo da pia e o coloca na posição mais precisa do buquê. Singelo, perfeito! E eu me lembro de como suas flores arranjadas eram de uma delicadeza sem igual. Nunca soube fazê-lo com tal mestria. Sorrio e você me sorri por detrás de seu vaso. 
Antes que você divise a porta da cozinha levando a sua obra para outro lugar, eu fecho os olhos para manter sua imagem em minha retina. Sei que você não voltará...
Abro os olhos, você se foi. Perdura, em meus pulmões, o aroma de suas flores, trago a margarida nos cabelos. Há um rastro vermelho de sol no céu, um silêncio de se ouvir só as cigarras... As coisas de novo como devem ser... 
Enxugo fios de água no meu rosto, respiro e retomo o caminho da minha vida com a renovada certeza de que você está sempre perto de mim.
(16.06.2014)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DIÁRIO DE UMA PUTA AMOROSA







Com X houve um tempo de perfeição
que se foi com a paixão perdida
Restou apenas um prazer  
feito de ternura, corpo e memória
Dança diáfana de luxúria,
sendo de apenas um 
o resgate de uma história

Ele não notava: ela não estava  ali.

Com Y, homem socialmente enquadrado,
o sexo era forte
de macho esfomeado.
Ele a penetrava com vigor
Ela lhe entregava os gemidos
Papéis cumpridos.

Ambos sabiam:  ela não estava ali.

Com W o prazer era quase autêntico
feito de anos e poucas certezas
A carne trêmula, o corpo em exaustão,
amor devotado oferecido em bandeja
Ora ela se servia, ora não

Um deles percebia: ela nem sempre estava ali.

Com Z, por fim, sempre o desencanto
naquilo em que se buscava emoção.
Como flor que refloresce 
na mesma estação,
ela se abria,
semeando, extenuada,  a  sua poesia.

Ela sempre esquecia: ele nunca estava ali.

Quão incógnitas são as letras
da matemática da vida crua e nua
Pensou

Pois se com letras só escrever se devia...
Fez, então, aquilo que mais sabia
E, ainda uma vez,  
sem  pudor,
reescreveu  o amor