segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

SENTA QUE LÁ VEM FILME : "O DESTINO DE HAFFMANN" ("Adieus, Monsieur Haffmann"; França, 2020)

 



                               (Imagem: Foto reprodução de Guernica, de Pablo Picasso)


Quando o mundo é tomado pelas trevas do autoritarismo, como o foi no nazismo e outros sistemas autocráticos, a integridade moral e ética que identifica a humanidade do indivíduo tem de ser vivida em segredo, clandestinamente. Nesse ambiente, ela é tão vulnerável quanto preciosa, sendo, por isso, o maior alvo da brutalidade e coação.
A integridade é quando a tempestade de fora não encontra berço na tempestade de dentro.
É sobre a integridade que fala o delicado filme O Destino de Haffmann (Fred Cavayé, 2020, França), que conta a história do desdobramento da relação que se estabelece, de necessidades e abusos, entre um humilde e complexado empregado, sua esposa, o patrão joalheiro judeu e um oficial nazista, diante do terror da ocupação alemã na França de 1941.
Num ambiente eivado de incertezas, medos, perdas materiais e afetivas, num momento sem luz de civilidade, é pelo perfil moral de cada um dos personagens centrais que se fazem e desfazem laços que, em outras circunstâncias, seriam impensáveis.
A partir da identificação do limite do aceitável ético para cada um é que a trama vai descortinando, evolutivamente, a profundidade psicológica dos personagens, revelando mazelas e grandezas justificáveis e injustificáveis, diante de um contexto tão difícil de uma guerra.
Usando a excepcionalidade da guerra e da ocupação de um país subjugado, o filme e sua cuidadosa condução ( cada detalhe é um passo que avança na descoberta dos personagens em seu papel de vida) demonstram como permitimos que a violência se instale em nossa casa e espírito, à medida que vamos nos escondendo sob a justificativa do medo e do cuidado exclusivo aos nossos, ditos amados.
Em suma, a história do filme mostra do que o totalitarismo se alimenta. Como num desdobramento do pensamento de Hannah Arendt, apresenta, todo o filme centrado em cenas do dia a dia ordinário do interior de uma casa e família durante a ocupação nazista na França, como o totalitarismo é sustentado por um querer inconsciente que se torna consciente, e este querer revelado não é o querer de um povo como totalidade coletiva, mas um querer individual das pessoas e que se soma. É o horror que se torna uma oportunidade e se retroalimenta da ignomínia que gera e que por ela é gerado.
Filme muito bom, de tema muito contemporâneo e que joga luz sobre nossas grandezas e miudezas de alma, mostrando que é no valor da integridade ética que se assenta o último refúgio de resistência.
Como vela a alumiar a profunda escuridão, é essa integridade que distingue em nós as guerras de fora das guerras íntimas, como forma de evitar ou combater opressões e manter nossa dignidade e humanidade, pois, como nas palavras lúcidas de admoestação do personagem oficial nazista, "a guerra passa."

terça-feira, 21 de junho de 2022

SENTA QUE LÁ VEM FILME: "O OLHAR INVISÍVEL"

 

O filme argentino, O Olhar Invisível, dirigido por Diego Lerman, com roteiro deste e de Maria Meira, na NETFLIX, é espetacular! Fala sobre o transcorrer dos dias da vida de uma jovem inspetora de escola, no contexto de uma Argentina no período final da ditadura militar.
Exercendo seu ofício com a rigidez imposta pelo momento político, também dentro dos muros da escola, a personagem Marita, despida de um olhar crítico para "as ciências morais" das normas escolares, pouco a pouco, se vê envolvida e confrontada pelo autoritarismo vigente. Este se mostra cru e implacável com todos os fracos e com seus longos braços alcançando tudo, inclusive aqueles que pensam estar protegidos sob qualquer espécie de concerto, expresso ou tácito, com tiranos e colaboradores do regime.
A película, muito fluente e com uma carga forte de tensão, coloca-nos caminhando ao lado da inspetora e mostra, paulatinamente, como a opressão se infiltra em todos os segmentos da vida física, social e psicológica das pessoas comuns. É todo um ambiente sob a vigilância de um "olhar invisível" contaminando o viver, os afetos com uma tristeza de dias descoloridos e sem qualquer proteção.
Pode-se dizer que, além de muito bom, o filme serve como ensaio experimental para os que bradam que se pode ter vida ou alguma paz sob as asas violentas, corruptas e abusivas de ditaduras. É um choque de realidade para os "iludidos".
Ditadura nunca. Nunca mais!

segunda-feira, 21 de março de 2022

Pelo Homem do Mundo

27/03/2020
 


Lembro da indicação do Papa Francisco e sua eleição e que muitos amigos, não só de aqui desta rede, lógico de convicções políticas progressistas, mas de vivência de vida real criticaram minha  expressão de grande esperança por sua jornada. Muitos relacionando sua suposta contribuição para o regime ditatorial na Argentina.


Na época, ponderei que acreditava no poder do arrependimento e que seu histórico mais recente indicava um sacerdote completamente comprometido com a causa dos pobres e necessitados. Logo após, vi o aval de Leonardo Boff e, então, pronto, fui dormir em paz. 


Confesso que o fato de ele escolher o nome Francisco e ser Argentino ( quem me conhece de perto sabe o imenso apreço que tenho por essa gente, que, recentemente, mostrou sua capacidade aguerrida de recuperar seu norte com a eleição de um governo de esquerda, depois de um baita erro e, assevere-se, sem golpe e sem perder a democracia. E, além disso, tem Maradona e  Gardel e o tango...) influenciaram muito meu olhar condescendente.  Mas não foi só isso.


Bem, já conheci algumas religiões e cheguei à minha própria conclusão de que elas não são a representação do divino, mas uma construção humana com todas as falhas e erros dos homens, em sua eterna relação de poder e medo. Minha ligação de fé é direta com Deus e Jesus e a natureza. Sim, sou uma simpatizante comunista que acredita em Deus.


Então, por que motivo meu encantamento com esse líder espiritual?


Justamente por esse seu olhar para as misérias humanas, todas e não só a material. 


Ele é um cara que traz Jesus pra terra, como tão bem relatou o samba enredo da Mangueira. Um cara que reensina o que é fé, conectando-a exclusivamente com nossa relação de amor às pessoas, ao bem coletivo, tenhamos ou não convicções religiosas.


Esse homem cumpre seu papel de amor sendo  exemplo de amor, a trancos e barrancos, expondo fragilidades, medos, erros, tentando incansavelmente aliviar dores, como cada um de nós pode e deve fazer.


Ao ver essas imagens, eu não vejo Francisco sozinho. Vejo, ao contrário, um homem rodeado de compaixão ao lado de seu rebanho chamado gente. E esse gesto amoroso me alcança, me toca, me afaga neste momento tão duro e isso me relembra minha capacidade, ou mais, meu poder de também amar e acalentar. Essa chama que, para mim, se chama Deus.


Pandemia, 27/03/2020

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Sertão


 

    Não é um desgosto, pelo contrário, há ali muitas fibras tecidas no querer. Nem é um desencanto como espera que não se cumpre. Concretamente, esperas nem sequer houve. Nem é, tampouco, a perda do que antes fora, pois há sempre um estado de um contínuo permanecer que se renova.

Na verdade , trata-se de um estranhamento, um desajuste, na melhor expressão. Simplesmente, uma peça que não se encaixa no último espaço do tabuleiro, não tendo sido ela feita de fato para encaixes:  una, exclusiva, em seu começo e fim de objeto ser.

Talvez esteja no vento que vira a folha, no sol  que clareia e traduz mais conhecimento e vida; ou na chuva que apenas chove, porque é época de chover, haja ou não as sementes lançadas ao solo.

É um algo de desarranjo num todo que se harmoniza. Sem destino a chegar, tudo é um estado de fluência para algum lugar. 

E nada se quer, mas se obtém. E nada se dá, mas se completa. 

Sem previsões de necessidades, de abundâncias ou explicações, apenas é.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Vida que Segue: Presente

 





Na sala, só o corpo rijo e frio é presença
Só o corpo e alguma história levada dali.
No jardim ao redor, todos os vultos de gente
flutuam sua inconsistência de existir,
loucos para que este seja mais um fato consumido.
É insuportável a presença tanto quanto
o cheiro da vela e do incenso.
Por que tudo isso,
se dor deve mesmo é ser consumada
com um botão "publicar"?
E horas, talvez um dia, e meio milhão de olhos,
que não veem mas visualizam,
sejam o tempo necessário
de purgar esse sofrimento
de certa duração medida nas réguas ínfimas
da nanotecnologia.
Então que sufoco é esse tão cheio de intangível vazio?
Alguém sabe de alguma dor que perdure e revolva,
mas que não se fixe em entranhas
e manifeste com outra cara e nome,
geralmente, de perfil feliz?
O velório nosso é de cada dia,
enquanto a morte de verdade sucumbe ao irreal.
Que a vida nos salve e que alguma poesia se cate no ar,
porque, por dentro aqui, já quase não se respira


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

CONSUMIDOS






O homem que cata papelão na rua 

descansa seu carrinho de catador 

e saca um iPhone do  bolso 

Folhea-o distraidamente 

com olhos que sorriem

Passados, futuros, amores...

Ou a mera alegria de um iPhone

nas mãos do catador

vencido ou vencedor.


Feliz instante?


Eu não sei entender se a cena 

é de um capitalismo ou socialismo

Nem o que significa esse tal ser feliz


Maria Angélica Taciano

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O BRASIL NUM FILME DE HORROR - O "Gabinete do Dr Caligari" é para os fracos



Já assisti a algumas sessões da CPI da Covid que trouxeram informações terríveis sobre o tratamento dispensado pelo Governo Bolsonaro à pandemia no território brasileiro, mas nenhuma sessão a mim me pareceu tão assustadora quanto à de hoje, em que depôs o Diretor Executivo da Prevent Senior. 


Se todas as acusações forem confirmadas quanto ao modo de agir da entidade e sua parceria com o "Gabinete Paralelo do Ministério da Saúde", pode-se afirmar que estamos vivendo, sob o céu do Brasil, o mais recente experimento aos moldes nazistas de testes científicos usando cobaias humanas, sobretudo velhos, já que a Prevent tem como público mais relevante pessoas idosas.


As menções ali referidas trazem indícios tenebrosos de experimentos em humanos com o tal Kit Covid, distribuído gratuitamente e com receituário médico padronizado a qualquer ingressante nos planos da operadora de saúde, bem como a sua aplicação em doentes confirmados e internados nos hospitais credenciados. 


O fato escabroso envolve suspeita de matricídio, subnotificação de mortes por COVID por fraudes em atestados de óbito e participação do Governo Bolsonaro como incentivador, ou até  mentor das operações, por meio do Ministério da Saúde e seu gabinete paralelo, o que envolveu profissionais da área médica vocacionados à ascensão profissional, ganho de dinheiro e sustentação de uma tese não científica de tratamento paliativo de COVID. Estou horrorizada!


A alegação da operadora de saúde e seu Diretor é que os médicos é que eram "livres" para receitar o que quisessem, ainda que tratamentos não confirmados cientificamente, e que a responsabilidade, portanto, seria desses profissionais.


Responsabilidade.


Acho que isso é  o ponto menos nevrálgico da questão, quando temos um Presidente que reafirma o tal tratamento precoce num discurso bizarro na ONU, para o mundo inteiro ouvir. (Aliás, um aparte deve ser feito: não riam do discurso, modos ou palhaçadas do Bolsonaro. Tudo ali é calculado e tem  um fim, um fim posto em plena execução, que é a eliminação massiva de vidas em nome de dinheiro e poder. E quando ele o faz na ONU, de modo à vontade, ele indica que nada o deterá. Há algo muito grande por trás disso, há não?). 


Pois então, há sérias suspeitas de que estamos com práticas de experimentos nazistas, em pleno século XXI, em território brasileiro.


E como se trata tudo isso que ao fim se mistura com toda patacoada estridente do chefe do governo todos os dias? Com uma cartinha dirigida a ministro do Supremo, ditada por Michel Temer ao facínora no poder, carta essa que nunca teve a intenção de aplacar a sanha assassina do ditador, mas acalmar a reação de quem devia reagir.


Ao largo dessas intrincadas manobras de politiqueiro, penso como deve ser horrível ter a doença COVID, e seu alto grau de letalidade, ir ao hospital, entregar-se em confiança a um médico de uma rede de saúde privada e este ministrar remédios experimentais em você. Consegue conceber o desamparo? 


Os efeitos disso são  quadros de uma degradação fisiológica inenarrável, a ver pela descrição da causa mortis no prontuário do médico Dr Wong (ferrenho defensor da cloroquina, falecido de COVID)  e da mãe do empresário Hang, o Véio da Havan. Este, pelo que se noticia, não somente internou a mãe aos tais experimentos como, depois, mentirosamente, disse em redes sociais que esta morrera de COVID por NAO usar cloroquina, numa visível e fraudulenta campanha de apoio ao tratamento. Como pode?


Temos um genocídio com requinte de crueldade em andamento, uma escalada intrépida do fascismo no país e nenhuma resistência efetiva para tirar esse homem do poder; temos, ao contrário, um Lira conivente. Tudo porque, antes da vida e da nação, há os interesses pelo dinheiro, mesmo dentre os novos "arrependidos bolsonaristas". Primam pela cautela antes de tirar o bufão do poder. Como ficariam os investimentos, e se, pior, a classe operária volta ao poder? Hum! Pensemos, vamos devagar... O que são números (de mortos) se não são números (nas bolsas)?


Tudo explica o desassombro com que até o filho fedelho de Bolsonaro faz chistes de ameaça às instituições da nação; ele sabe que caminha em território firme e dominado e que nada irá lhe acontecer.


Então, aos que riem das graças tenebrosas de Bolsonaro, tendo-o por louco e/ou burro, não o façam a menos que os risonhos sejam como hienas, que riem antes de devorarem as presas numa disputa por comida, ou que sejam uns nervosos, que gargalham de medo e  desespero diante do terror. 


Nós, gente comum brasileira, estamos morrendo de medo, dor, angústia, desamparo e de morte matada. Não achamos graça nisso.


Maria Angélica Taciano   


*(Imagem: Montagem sobre imagens do filme O Gabinete do Dr Caligari - Fotomontagem Vinícius Vieira/ Jornal da USP.)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A HARMONIA QUE NÃO QUEREMOS

Nunca estiveram tão frágeis, depois da democratização do Brasil,  as instituições de poder republicano do país.


Depois de uma clara ameaça à Democracia, por atos, mobilizações financiadas e discursos de ruptura da ordem constitucional pelo chefe do Executivo,  é muito inocente pensar que o pior foi superado só porque uma nova alvorada sem chumbo despertou no dia 08 de setembro.


Em tempos de algoritmos, é no ar que a realidade paira e até chumbo flutua. 


E trôpegos, tentando flutuar nessas ondas, porque depois do tropeço e antes da queda há sempre um voo, estamos aqui, sentindo-nos salvos nos discursos de quem nos trouxe até o estado de coisas em que vivemos.


Foi com estarrecimento democrático que ouvi nas rádios os brados do Presidente da República, em seu palanque golpista na avenida Paulista  Dos presidentes dos Tribunais Superiores ouvi, com não menor estarrecimento, os  gritos de pedido de reforço ao Legislativo, este que francamente claudica com outros discursos moderadores, que são tão inúteis quanto reveladores da conivência com perspectivas tenebrosas ao país.


Estamos definitivamente  por nós. Mas quem somos nós? 


Nem isso mais sabemos diante da volatilidade das certezas, que um dia se encolhem face às ameaças e gritos e, noutro, se agasalham sob um manto fino de que tudo não era "sério" , ao contrário, quase jocoso para estampar inúmeros "memes".(Vamos sorrir, afinal, que sorrir é remédio nessa terra doente sem outros remédios! )


Dizem que antes de toda morte há um sinal de um sopro de vida.  A Democracia no Brasil vai de sopro em sopro dando seu adeus fatal.


É de sopros que ela morre sob os tiros dos tais canhões que flutuam nos perdões, nas indignas lágrimas e desculpas, na fé de hoje em valentes que, ontem,  nos privaram de toda forma de vida, da dignidade da justiça, da proteção das leis e da Constituição.


A morte num segundo beijo de um vampiro, conhecido, assassino de Democracia, é hoje  aceita por um estranho alento que cobre o medo ou a descrença.


Nunca estiveram tão frágeis as instituições de poder republicano,  após a democratização do país, porque seus titulares de agora estão, ao fim e ao cabo, em harmonia. 


Ai de nós!

quinta-feira, 29 de julho de 2021

As pessoas estão nas ruas

 



As pessoas estão nas ruas, nos bares, nas praias, nas calçadas, nos shoppings, nos salões de beleza, nos prostíbulos, nas igrejas, nos bancos das praças, nas lanchonetes, nas barracas de pastel e caldo de cana das feiras livres, nas academias, nas aulas de dança, nos campos e campinhos de futebol, nas casas uns dos outros celebrando vida...

As pessoas querem apenas a vacina, qualquer vacina ou o que com isso se pareça que as liberem de usar máscaras nas ruas.

As pessoas querem andar sem máscara e não ser julgadas.

O problema não é o vírus. As pessoas querem vacina contra máscara.

No mais, tapam os ouvidos e olhos, e tocam esse bonde sabe-se lá para onde.

domingo, 16 de maio de 2021

NADA OBSTANTE

 



Às vezes, sinto que vivo
uma paixão não correspondida
com a vida.
N'outras, tenho certeza
de nosso tórrido amor



(Imagem; Botero Sutra)

TIRE A MÃO DO MEU QUEIJO, COCA COLA.

 




TIRE A MÃO DO MEU QUEIJO, COCA COLA.


Pobre lua, com suas águas recém descobertas, está virando território de guerra comercial.
Logo o capitalismo vai cobrar para olhar para ela. Haverá os excluídos de noite de luar!
E os pretensos donos capitalistas da lua, que nada entendem de lua, vão reprimir as revoluções lunares...

POETAS, AMANTES, LÍRICOS E REVOLUCIONÁRIOS LUNÁTICOS DO MUNDO, UNI-VOS!


20.10.2020

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

All You Need is Love

 ALL YOU NEED IS LOVE

Hoje, ouvia no rádio a música Michelle, dos Beatles, e me lembrei de um filme com Sean Penn, em que seu personagem, mentalmente limítrofe e fanático pelos Beatles, explica a um juiz de custódia que, quando Paul fez a música Michelle e a mostrou para John Lennon a saber sua opinião sobre se faltava algo, este apenas acrescentou o verso "I Love you, I love you, I love you" e o álbum com a referida música foi o mais vendido dos Beatles até então.
Na conversa entre Lula e Leonardo Boff, hoje também, a tônica foi o amor em todas as suas formas e Lula, ao fim, pede que as pessoas falem mais de amor, vivam o amor, porque é do amor que nasce o sentido de todas as lutas. Não foi à toa que Guevara exortou os revolucionários do mundo à ternura como uma das faces da força.
Vivemos tempos muito, muito duros, sem muita fé no futuro, sem muita fé nas pessoas, sem muita fé na fé. Mas o que mais se quer e precisa no meio do deserto senão justamente a água? Em meio a tanto ódio, é necessário ter coragem de falar de amor.
A necessidade é algo que tem uma natureza transitória e, se ela persiste, vira o sofrimento. E o sofrimento também não é o estado de ficar, mas de passar.
É preciso oferecer o que cesse o sofrimento, e a isso se chama amor solidariedade. Mas não acaba aí. É a tal água da ternura a que mata outras sedes, lava a mão, torna o sujo limpo, o feio belo, a que nos reflete como espelho e nos revela gente. Esse é o amor apenas amor, tão presente nas coisas pequenas, descuidadamente alegre.
Lula é um político desigual que nunca teve medo de falar de amor, um pregador do deserto, do deserto das almas, das ilusões, da esperança. Ele viu que é dessa água que se trata.
A alegria é o lugar de ficar de todo ser vivente, é a sede saciada, a alma lavada, a beleza nascida do estado de bem querer ido e vindo.
Estamos, por ora, combalidos, extenuados da dor que nos mira do espelho e da que nos olha da janela. E fomos levados a entender que a dor é uma só, porque dor é dor por quem quer que a sinta e, onde ela dói, toca em toda parte. De todas as dores, a dor.
É preciso, pois, falar de amor para arrefecer a dor-uma, nossa e de todos; é preciso fazer o amor.
Então, se canto outra canção que não a sua, por favor entenda, que ainda que seja outra, mais uma, mais um milhão, a última canção, importa é que seja uma canção de amor. Ouça e se deixe levar. "I love you!".

sábado, 13 de fevereiro de 2021

SENTA QUE LÁ VEM FILME : "Malcolm & Marie"

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                                    (Os atores John David Washington e Zendaya, em cena do filme "Malcolm & Marie")



"Malcolm e Marie", do diretor  Sam Levinson, narra a noite intensa de um casal que retorna de um prestigiado lançamento de um filme escrito e dirigido pelo personagem Malcolm e a roupa suja que então se lava, numa afiada e dolorosa discussão, que tem por estopim um deslize cometido pelo homenageado na hora dos agradecimentos pela ovação de seu filme.

O tal fato traz à tona toda uma teia de sentimentos, impressões, dúvidas e mágoas que cada um daquela dupla tem em relação a si mesmo e em relação ao consorte.

Nessa discussão, que transcorre entre diferentes temperaturas e que chega às margens de questões bem perturbadoras, nas quais, não raro, nos reconhecemos em alguma medida, se vê o quanto é comum se reproduzir sobre os mais próximos tudo o que se gostaria de obter e não se obtém do entorno, do mundo de fora, e a explosão para outras direções dessa frustração abafada.

"Malcolm e Marie" traz à tona, num diálogo muito bem elaborado, atuações impecáveis da dupla de atores, uma trilha sonora lindíssima com jazz, blues e soul dos grandes,  e em meio a um ambiente em preto e branco, questões que vêm do subterrâneo das relações amorosas, sociais, políticas e humanas. Estão, por exemplo, no mesmo patamar de importância e significado, desde um macarrão com manteiga que a mulher prepara para matar a fome e acordar a realidade, quanto o discurso revoltado do personagem cineasta em relação à crítica recebida da mídia branca, que julga a qualidade de seu filme exclusivamente pela perspectiva de se tratar de uma obra feita por um negro. E, no entanto, esse reconhecimento pretendido o mesmo cineasta avaliado não o devota à sua companheira, talvez pelos mesmos caminhos do olhar percorrido pela jornalista que fez a crítica de seu filme.

Marie, por sua vez, como o companheiro Malcolm, com todas as armas que ambos têm e poderiam usar e se libertar, não toma nas mãos o que realmente quer, apenas esperando passivamente, até aquela noite, que lhe seja entregue tudo o que julga lhe pertencer. E nesse caldo se diluem questões raciais, de gênero, as falas engolidas e a velha história do medo e do egoísmo mesmo (ou principalmente) numa relação de amor. Demasiado humano!

É um filme que fala sobre se ir despindo até a grande nudez da honestidade, como no decorrer da película em que se dá a retirada gradativa de roupas, desde a chegada em casa do casal com suas vestes de gala, até a paulatina perda do glamour festivo com a deposição dos adereços e modos de cada um.

 Basicamente é um filme sobre a luta que se trava entre usurpar e buscar tomar de volta. E o que pode se salvar de tudo isso sem as fantasias ou máscaras (não estamos, afinal, para Carnaval). Mas também é um filme que fala de ternura, da ternura que nos calça para andarmos pelos cacos estilhaçados no chão, até o apagar da última luz.

Lindo filme!