quinta-feira, 28 de março de 2019

Comboio da Liberdade

Logo após o sim, virou-se  e caminhou para a porta. Ainda parou no meio da nave a retirar os sapatos de altura inadequada para esse voo.
Trespassando a barreira dos olhares estupefatos da plateia, correu em direção à porta de saída da igreja...
Bem mais tarde, alguém na margem da estrada veria seu rosto esparramado  contra o vidro da janela do ônibus a olhar o céu. Pode ser que esse alguém, embriagado da visagem, viesse imaginar ser ela  mais uma indo juntar-se a longínqua revolução.
Nem suporia da revolução já instalada, tão perto, a mudar a antiga ordem posta naquele coração que passava, voltava a pulsar e tremia como a flâmula ao vento voando no veículo, que sumia no horizonte da estrada.
A única certeza que havia para ambos é que aquele que lá se ia,  destino afora, era o tal comboio da liberdade.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Maria das Dores, abençoada.


De repente, ela sentia a dor conhecida, 
tal espasmo vindo do mais fundo de suas entranhas, 
embora no seu corpo carne essa sensação não se fizesse presente
nem no ventre, nem nos músculos a expulsar um feto.
Ela paria, agora, um outro filho, 
esse gestado em um continuado sentimento, todo dia fecundado, todo dia, 
desde aquele encontro do inaugural contato de olhos, 
desde os abraços renitentes de ninar e proteger, 
da boca a sugar seu leite de mãe, 
desde o ensinar os passos de andar...
Ela paria novamente. 
Era a dor conhecida do parto, 
do espanto da vida a revolver e renovar. 
Da mãe do filho nascia a mãe do pai.



(Foto via Mia Couto)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Sobre Minas, sobre lamas, sob lamas, Minas.

Quando retornei a Minas, depois de anos de ausência, fui numa viagem de encontrar com minhas raízes,  tão necessitada me via de bases essenciais. Foi no ano em que o Brasil sofria o golpe de Estado, com o rompimento da jovem democracia pela deposição da presidenta eleita, Dilma Rousseff.


Achei a Minas que buscava, com seus causos, sabores, suas horas lentas, seu povo desconfiado de olhos à espreita. Era a Minas da paisagem generosa, do deus céu Urano deitado  sobre Gaia, em sua cópula infinita, nas curvas montanhosas e belas da mulher terra. 


E havia aquele ar da tristeza natural e reservada de Minas, engendrada nos sorrisos furtivos, na contradição da riqueza a um tempo explorada e emancipadora das cativas liberdades,  da terra de cujo ventre sempre jorrou, mítica e esperançosamente, a magia do nascimento de reinados improváveis de Chicas e Chicos.


No entanto, coabitava a outra tristeza, a não natural, a advinda dos efeitos do desastre terrível de  Mariana, lavada pelas ondas assassinas da ganância do capital. Ainda assim, resistia a resistente Minas...


Na segunda viagem, voltei a Minas a buscar elementos de guerreira, indo pela trilha dos heróis martirizados da Inconfidência Mineira, para ouvir a voz insufocada dos vencidos. Encontrei  os rastros dos escravos, heróis inominados, e da dívida que não se paga... 


Num ano tão amargurado, em que o que há de pior da vilania tomou nosso país, a Minas revoltosa surgia como um necessário berço a dar nortes à minha alma desalentada. 


E foi a força da História, da natureza, das pedras, dos minerais quem me recebeu em Minas. Quanta montanha subida, quanta água de cachoeiras e batismos, quanta rocha esculpida a olhar com seus olhos seculares de profeta! 


Mas no caminho, sempre, como a pedra incompreendida do taciturno poeta, havia a Minas  revolvida pelas mineradoras e as linhas de trem, e um nó no peito de saber de nossa riqueza se indo de nossa pátria, sem obstáculos..


No dia em que o tirano tomou o poder, houve um silêncio macabro, um grito de esqueletos, que dizia "Por que de novo? Por que de novo?".


Veio então a resposta, eivada de toda a tragédia que circunda a ganância e o dinheiro,  num  reiterado estrondo, numa massa de lama varrendo tudo,  soterrando vida, História, sonho, a beleza e a força de Minas, os ecos proféticos de suas montanhas ...  A resposta  veio abusada dizer "foi pouco.".


Hoje, de novo, há lama sobre Minas, fruto da derrama sangrenta de um Brasil que abafa qualquer prenúncio de sua liberdade. Há lama sobre Minas. 


Porém, algo que vem das entranhas me diz que há Minas, há Brasil sob a lama, e que há heróis sufocados por pó e medo em nós.


Pois que esses heróis emerjam, porque se o sinal de salvação das vidas sacrificadas pela barragem não foi soado, outro tocou e vem deixando seu claro aviso:  não há pilares que sustentem mais nenhuma espera, e o único caminho de respirar se apresentou. E precisamos urgente respirar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Garrafa no mar


E era nas coisas
práticas da vida
que a comunicação
entre eles se fazia.
Mas ela não era uma pessoa prática...


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Das Primaveras


Eu quero cuidar de jardim. Falar a palavra exata para alegrar plantas. Vê-las florescer.
Não sei mais falar a língua das gentes. Gente anda cada vez mais espinhosa, não entende de delicadezas nem grandezas.
Nunca quis murchar ninguém nem a mim. Eu só quero florir pelo mundo.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Contos eróticos

Meu amante alemão.

     
   

                I

E hoje eu precisei, mais do que nunca, estar em mim, livre de personas. E eu voei...Sabe pra onde? Óbvio que pra sua casa. Dane-se que eu encontrasse janelas e portas fechadas. Eu fui.

Demorei um pouco lá fora, um pouco de frio, o sol sem força ainda para desanuviar a bruma. Fiquei ali sentada, no degrau da porta da cozinha. Nem ousei investigar se havia barulho na casa. Os cães me viram, olharam, mantiveram-se quietos. Não ralhe com eles, por conta da negligência de sua vigia, mas eles me viram como conhecida.

Fiquei ali ouvindo o silêncio do mato. Quanto ruído tem nesse silêncio, a menos que se possa chamar de silêncio o marulhar das folhas dançando com o vento, os estalos da mata, aquele monte de canto de passarinho. E eu lá, sabendo que você estava do outro lado. Não sei se a matéria do corpo, mas havia você naquele instante lugar.

Certo momento, ousei e entrei pela janela do banheiro. Andei pela casa adormecida, pensei em lavar a louça da pia, mas não, não quis desfazer a marca de sua real presença, os despojos de seu viver, existir. Isso mesmo, no que é ínfimo, a louça suja, usada, tocada por sua mão e lábios.

Sentei-me diante da mesa e por sobre seu tampo deslizei minhas mãos vagarosas. Fechei os olhos e percebi a energia quente ainda ali, a nossa energia sentada sobre a mesa, à nossa espera. Tive de resistir muito para não fazer o que aquela mesa sugeria.Retirei minha mão e a pus sobre meu peito, que se movimentava em ondas dolorosas de desejo, arfava violentamente.

De súbito, me levantei e me pus a percorrer a casa, buscando-me saciar dos vestígios de você. Fui bem próxima da porta do quarto. Eu ouvia sua respiração, quis entrar e me colocar nua debaixo da mesma coberta, me encaixar no ninho adormecido de seu colo, suas mãos grandes me acolhendo nesse abraço. Mas não fui; tinha medo de não voltar nunca mais.

Voltei à cozinha, fiz um café esperando que o cheiro recendesse pela casa e fosse acordá-lo. O cheiro quente povoou a casa, mas foi cuidadoso com seu sono. Quem sabe se se meteu em seu sonho? Era tão bom estar ali com o mínimo de coisas e o máximo de ser e existir! E com tudo isso mais a chama que vibrava dentro de mim, acedi ao convite da mesa e nua sobre ela me deitei. Tendo os olhos fechados, pernas semi-flexionadas e timidamente abertas, fiz com a ajuda de minha mão o mais próximo do que você descreveu e prometeu que faríamos. Éramos você, eu e a mesa, enquanto você me tocava, me penetrava, me abria, usando minhas próprias mãos. Você, meu amante alemão...

Agora? Sei lá. Eu nem sei se voltei.

                             II

-É sua primeira vez aqui, no Sul? - perguntou a velha sentada ao lado, tirando-me de meus pensamentos. Era uma senhora de pele lisa para a idade que supus, cabelos curtos muito brancos e olhos azuis. Trazia um sorriso nesses olhos, algo tão raro nos velhos.
-Vem a passeio ou a trabalho?
"Venho cumprir uma sina", quis dizer a ela. Mas em meu sorriso e vaga resposta, esforcei para que ela apenas visse mansidão em mim, um simples fato de uma viagem. E enquanto ela me contava das tradições que se misturam com a própria geografia, tudo tão cheio de mistérios para uma mulher como eu vinda de lugar tão sem identidades, vinha-o imaginando colocado nesses elementos. Você se tornando cada vez mais estrangeiro para mim à medida que eu avançava em sua direção. Sentia-o tão próximo dela, brasileira também, mas filha e neta de alemães com esses nomes que a gente mal consegue pronunciar. Minha pele morena, meus cabelos naturalmente revoltos, meus lábios cheios eram quase um insulto naquele cenário. Era eu a de fora da história.
Para onde eu estava indo, por que? A passeio ou a trabalho? Eu sabia que eu ia me perder, mas nada me faria voltar.Meus joelhos estremeceram e um nó no peito se instalou quando a nave pousou no seu chão. Nada mais então, nesse sítio, me pertencia. Sim, era eu a estrangeira, a cheia de dúvidas e de intensos.
Desembarquei do táxi de mala na mão, exatamente no local que combinamos. Tudo era como eu imaginei na sua precisa descrição. Parecia que as pessoas me percebiam, sabiam de meu desígnio. Eu sabia que não desistiria, mas algo de lucidez, num átimo, me jogou a admitir que deveria ir embora, não esperar você despontar a qualquer momento, de qualquer lugar. Você à vontade, senhor do tempo e das coisas a ponto de nem vir se não quisesse, sabendo que eu ficaria ali, qual animal acuado sem me mover, esperando-o. Era o primeiro fetiche o de me dar medo? Esfreguei as minhas coxas uma contra a outra, respirei fundo...Tive prazer nesse inócuo medo.
Sentei-me na mesa designada, no café designado com raiva de minha mania de mudar as coisas de última hora para atender à urgência de minhas vontades. Cheguei uma hora antes do combinado e, obviamente sabendo do desfecho disso, ainda tive aquele amargor de raiva de ter de esperar. Não lhe ocorreu imaginar, não me conhecia, não sentia igual a extrema vontade de antepor-se ao tempo? Tive raiva de mim, tive raiva de você, tão preciso com seu relógio alemão. Como pude me encantar por um alemão?
"-Eu sou anarquista, larguei tudo (ou quase tudo). Saltei de um trem. Vivo no mato, já fui dessa vida delirante, de loucuras. Agora sou um índio alemão. Nada mais anarquista que isso, né?"- e solta sua risada "kkkkkk", na mensagem virtual.
Eu acho esse papo de anarquismo uma babaquice, gente que arruma motivo para não encarar a luta. Puxa vida, o país está uma merda e o cara recluso no meio do mato. "Minha pátria é a mata!". Babaca, quero ver se não tomarmos conta do país, se algum gringo vai deixar você tranquilo na sua "pátria verde". Não, isso não vai dar certo. Já, já deleto esse cara. E, de repente, essa mania de minha vontade ser tão destacada de meu juízo, me vejo assim, louca de vontade de estar nessa sua mata tão diferente de minha selva.

III

É um início de noite, chuvosa. A sala pequena é iluminada pela fraca luz de um abajur. No espaço imediato, predomina o silêncio, emoldurado por ruídos indecifráveis ao longe, lá embaixo, de uma cidade ardendo.
É uma sala de um apartamento. As flores compradas ainda estão dentro do embrulho sobre a mesa. Ao percorrer o carpete acinzentado claro, topa-se com um pé de sapato deitado sobre parte do carpete e das franjas de um tapete vinho escuro. Mais adiante, o outro pé do sapato se esconde, em parte, por sob o sofá azul marinho, dando a parecer que tal sofá é ele  sustentado por aquele salto de sapato feminino. Os pés descalços, donos desses sapatos, descansam sobre o tapete, largados, prolongando-se na mesma letargia das pernas semi abertas e nuas da mulher quase deitada no sofá. Traz as saias suspensas até os joelhos, a camisa solta com dois ou três botões ainda atados, revelando um pouco as curvas de seus seios nus. A mulher sustém uma taça vazia, girando-a nas mãos, distraída.
Na porta da cozinha para a sala, um vulto de homem a observa da escuridão. Ela o percebe, dá um meio sorriso e levanta a taça como a pedir que esta seja reabastecida. O homem sai da escuridão para a pouca iluminação da sala, devagar, trazendo uma garrafa de vinho nas mãos, revelando aos poucos a nudez de um corpo grande e de carne alva.
Ele estende a garrafa como se fosse derramar dentro da taça a bebida. A taça fica no ar vazia e ele faz escorrer pelas coxas dela, que ele põe à mostra ao levantar mais suas saias, riscos de vinhos que são seguidos por seus longos dedos. Ela estremece com um fundo suspiro e já a mão dele investe devagar por regiões não reveladas por sob a saia. Ele, de joelhos diante dela, do v de suas pernas já se abrindo, faz com as mãos e os braços uma espécie de um mergulho no escuro rio. Sua vagina é um alagado, molhada, quente, ardendo, pedindo, pedindo. Num único golpe, ele abre a camisa dela, fazendo voar os últimos botões resistentes. Ele mira os botões eriçados agora em forma de bicos de seus seios morenos, à mostra, que se movimentam num frenético sobe e desce de sua respiração. Ela olha dentro dos olhos muito azuis daquele homem, olhos que faíscam, assustadores, avassaladores e aguarda seu arremesso sobre seu corpo. Ela ainda segura os seios para ele, como oferenda para saciar a fome daquele faminto e gigantesco rebento. É, no entanto, surpreendida pela mão dele, escorregando qual serpente, por seus pelos púbicos, subindo ao ventre, umbigo até encontrar os seios em espera. Com a força de sua vontade, ele os aperta, a ponto de ela soltar um  mudo gemido de dor logo sufragado por um grito de prazer, para enfim, senti-los  sugados sofregamente pela boca  enorme do homem, buscando devorar inteira aquela fruta.
Ela se contorce de desespero no sofá, minúscula debaixo da fera que a abateu. Ela ensaia mover seus quadris por entre os joelhos rígidos dele que a retêm, e sua cabeça presa pelos cabelos por uma das mãos masculinas faz daquele instante um ritual de completa resignação. Ela se deixa entregar enquanto aquele mamífero voraz a suga. Não demora para que outro elemento, seu membro quente venha cobrar a sua parte daquele sacrifício. E é ela agora quem assume o ritual, tocando-o, acariciando-o, friccionando-o entre suas coxas, sobre o clitóris, sem lhe permitir a entrada insistentemente requerida. Subitamente, valendo da fragilidade em que ele se encontra atacado pelos toques suaves da fêmea, ela inverte as posições no sofá, colocando-se sobre ele, em seu colo, olho no olho, lábios e lábios, línguas e sucos em disputa, em comunhão...

(Continua...)
...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Visagem

Não aguento mais
essa miragem
Que me mostra lampejos matutinos
ou fragmentos noturnos
de você.

Foto: Jowhar Tirur


sábado, 19 de maio de 2018

Fim de história




Quando terminei de ler a você o meu conto,
você, com um discreto lamento desapontado, perguntou-me por que eu não os havia deixado ficarem juntos no final.
- Porque seria o que eu queria e nao o que realmente era.

domingo, 4 de março de 2018

Caminhantes

É longa e árdua
a estrada que nos leva
um ao outro.

Nem o braço
que atravessasse a mesa
poderia vencê-la.
Sequer a palavra
mil vezes dita
chegaria aos ouvidos.

Mares bravios
cortam-se até a chegada ao porto
dos ausentes encontros.
Pois é longa, é ardua a estrada
que nos leva um
ao outro.

Coberta de noite, névoa e miragem,
é estrada inteira feita de fluidez
e distância
essa estrada que nos une.


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

domingo, 10 de dezembro de 2017

Um corpo qualquer




O corpo do meu amor
é um corpo qualquer.

Tem olhos para se abrir nos sonhos.
Tem boca para gritar vontades.

Tem ouvidos para escutar língua.
Tem dedos para desenhar delírios

Tem braços para dançar nas calçadas.
Tem peitos para voar destinos.

 Tem mãos para beijar fim de espera de avião.
Tem pés para embalar seu sono tranquilo.

O corpo do meu amor
é tanto seu como meu.
É um corpo qualquer,
nesse um só corpo
de homem e mulher.

No mesmo corpo,
o amor do mundo
Nem meu, nem seu
apenas corpo e amor




quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Nossas camélias

Por falar em camélia, vou te contar uma história sobre umas camélias e a gente.
Faz um tempo, comprei um vaso com um arbusto de camélias, pretendendo, lógico, que elas enflorassem. Às poucas flores que havia no vaso, quando eu o comprei, eu olhei com os seus olhos, e pensei que você adoraria aquelas flores de semblante meigo e pétalas fortes, carne rija qual Violeta, a poetisa.
Comprei a árvore para a sacada, naquela época em que mal nos falávamos (lembra?).
 Eu determinei a mim, meio jogando para o céu, para os deuses da terra e das boas colheitas, que quando ela florescesse, você voltava; se não florescesse, não voltaria..
Pus-me então a cuidar da planta. Como cuidei dela!
Para minha tristeza, eu a via cada vez mais minguando e, com ela, minguava minha esperança. Enfim, ela secou. Talvez mais por uma inabilidade técnica de minha parte do que pelo desdobramento de um fatalismo lançado em um sortilégio. Talvez. Era você sempre quem salvava minhas desajeitadas investidas nesse mundo verde, em segredo, para minha alegria...Talvez.
A faxineira falou pra eu jogá-la fora, sem sequer imaginar o que fenecia e o que se jogaria fora com aquela árvore morta. Não joguei. Mantive seu tronco, aparentemente seco, lá no vaso. E continuo cuidando dela ainda, da "falecida" como a faxineira a chama sem entender o meu desvelo, a minha teimosia por aquela planta seca.
Espero que algum mistério a faça brotar, algum dom mágico fazê-la ainda vingar. Há tanta magia no amor e tanta surpresa na esperança! Toda manhã penso comigo: será que hoje ela não desabrochou do modo inteiro como sempre quis? E tomo meu café solitário com o lampejo dessa certeza dessas flores abertas do outro lado da janela que ainda não abri.
Outro dia você me ligou, depois de tanto tempo de silêncio, e como eu sempre sou incapaz de guardar todo o segredo de você em mim, contei em parte sobre  a desventura das tristes camélias. Que sina! Por que tomei as tais camélias? E, então, você me contou que camélias são as flores de sua infância, de sua cidade. Que há muitas delas enfeitando lindas o jardim da casa de sua irmã. "Incrível a flor que você escolheu, que coisa!", me disse.
Então era esse todo o mistério! Compreendi que não fui eu, mas elas que me escolheram e floriem a seu modo...
Mas, agora, deixe-me largar dessas lembranças tolas, porque o sol já está se pondo e é nessa hora da tarde dourada que elas gostam de ser regadas. Tenho de ir à sacada regar minhas camélias invisíveis, vicejando eternas no vaso da "falecida".

(Imagem: Filme "Camille", de Ray C. Smalwood, com os atores Alla Nazimova e Rudolph Valentino)