terça-feira, 30 de junho de 2015

As borboletas também amam


de tudo quanto eu sei de você
nada me faz mais querer ficar
do que tudo aquilo
que eu não sei de você



terça-feira, 14 de abril de 2015

Vida - Apenas um Pequeno Conto

Quando Vida  se decidiu, foi com a mínima influência do pensar. Pensar lhe confundia a ideia, lhe apaziguava os ânimos, reforçava nela as amarras do amor, do dever, do deixar-se  a si mesma para depois. A noite tinha sido difícil, não passava. No entanto, lampejos de certezas, que lhe apareciam como imagem intermitente na escuridão, iluminavam seu duvidoso intento, delineando uma sombra de largas asas, mas que traziam, também, pesos de sacos de areia a lhe puxarem para o chão. Levantou-se resoluta. O cão a acompanhava em vigília, ali, ao pé do sofá  em que ela dormira. Não, não olharia aqueles olhos caninos de incansável ternura. Isso a enfraqueceria. Mesmo assim, não pôde resistir nos cuidados quotidianos com o animal e, então, abasteceu-lhe o recipiente de ração, limpou-lhe a área de sua habitação no quintal. Ninguém o faria e ela não poderia partir com essa culpa. Seguiu, após, para o quarto e viu o homem ali, ainda dormindo à vontade, na cama que se fez mais larga com a sua ausência, o seu estéril protesto de cansaço da inexistência.. Brotaram-lhe lágrimas nos olhos que, em alguma vez, já tiveram a capacidade de enfraquecê-la por uma anestesia de perdão. Hoje não seria assim, a dor liquefeita encorajava sua decisão: iria. Na sala, já havia os rumores de seus filhos, que ao contrário de outras manhãs de sábado, puseram-se cedo de pé. Conversavam dando ares de naturalidade ao ambiente doméstico envolto num mal velado turbilhão. Ela recuou:  iria? Pegou, no entanto, a mala já feita. A bolsa rota também ostentava o desgaste de uma espera infinita, com selos puídos da única viagem. A mala tão esquecida como a memória dessa viagem. Sob o silêncio forçado dos rapazes fingindo atenção ao programa na TV, ela fechou mansamente a porta e saiu. A rua perto de casa, caminho tão rotineiro, pareceu-lhe tão opressora a indicar uma única direção. Sem saber para onde ir, tomou o primeiro ônibus. No caminho, olhando pela janela, viu-se no reflexo da vidraça misturada a vultos de toda sua história, cambaleando nos sacolejos do veículo. Chorou um choro engolido e profundo, um olhar inevitável para o infinito de seu vazio. Secou nesse choro, o quanto pôde, toda a sua água de cansaço e desilusão. O ônibus, aos poucos, foi revelando caminhos conhecidos, dando-lhe um certo conforto de espírito, embora isso lhe custasse a ousadia de seu gesto. Desceu onde sempre percorreu, onde sempre fez andar sua solidão.Sem saber o que buscar, decidiu que atenderia tão só aos apelos dos sentidos: beberia quando sentisse sede, comeria quando sentisse fome. Tentou instalar-se num hotel, como uma forma de confirmar seu propósito de só prosseguir. A fila no balcão e os olhares das pessoas, talvez a perceberem que não se tratava de uma estrangeira na cidade, fizeram com que ela recuasse e adiasse a ideia de se hospedar. Sendo meio-dia já passado e  premida pelo hábito da obediência das horas contrariando seu inicial intento de indisciplina, entrou num pequeno restaurante para almoçar, sem muita vontade, a sugerida feijoada de sábado. A amiga lhe chamou ao celular. Atendeu a chamada e ouviu da interlocutora os mesmos dizeres de sempre, carregados de uma incapacidade quase cruel de aprofundar a mais de um palmo no seu sentir, em sua dor. Os dizeres da amiga sempre provindos de um manual que não ensinava nunca a ouvir sem palavras. Após desligar o telefone, uma sensação de profunda piedade a envolveu: a amiga não era a que dava a ajuda, ela era a que precisava da ajuda. Voltou os olhos para o dia em torno de si e pôs-se a tangenciar  a vida do sábado. Sentada minúscula, com a mala aos pés, numa mesinha do lado de fora do restaurante, localização que a incomodava uma vez já passada a rebeldia inicial de postar-se assim exposta, sozinha, numa mesa de rua, fo sei deixando tocar timidamente pelos sinais de existência desse dia, do festejado sábado com seus ruídos e trejeitos que denunciam a busca exasperada de alguma coisa sempre a um passo à frente de nós. Faltando ainda uma hora para a sessão de cinema - único refúgio, nascido de seu mais autêntico encontro consigo mesma -  ela caiu numa espécie de transe de indolência não se sabe se decorrente da caipirinha do almoço ou se refluxo de sua solidão. Nesse estado letárgico, outras solidões puderam ser, então, vislumbradas e houve um regozijo seu diante dessa festa solitária. Nessa hora, o turbilhão da cidade ao qual ela nunca se sentiu pertencida abriu-lhe a porta a convidá-la "vem, você é bem-vinda nesta casa" e passaram a desfilar, diante dela, tantas formas de solidão desnudadas:  a solidão temerosa na caminhada do velho carrancudo com seu cão, a solidão triste da falsa cumplicidade dos amantes em sua conversa cifrada do amor proibido e sempre insatisfatório para um, a solidão vazia das bocas sorridentes dos jovens que falam e não se ouvem, a solidão enganada das moças bem vestidas que nem são vistas...Uma cidade populosa e imensa fragmentada em  partículas de solidões. Estranhamente, ali sozinha, constatou, pela primeira vez, que fazia genuinamente parte de algo. Ela suspirou e sorriu. Quando saiu, mais tarde, de seu cinema, costumeiramente renovada, caminhou feliz. Parou em uma banca de jornal e pôs-se a folhear livros de receitas, reconhecendo nelas o prazer de seus meninos e o dele. Num impulso, comprou dois ou três livros e colocou-os na mala que a acompanhou  por todo o dia. Já era noite, olhou o relógio. Estava na hora de voltar. 
No ponto de ônibus, dois olhos, quem sabe, observariam aquela mulher, de mala nas mãos, subindo resoluta num ônibus. Sentiriam certa inveja de tamanha certeza. Talvez viessem a supor, por alguma experiência ou intuição, que aquela  era Vida tomando de volta o seu destino.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Noturna

Sempre que olho a lua
Lembro de mim a perguntar-te
Se foi meu o teu lembrar
na noite da lua mais linda na terra.
Disseste-me não.
E eu, mesmo esquecida,
toda a vez que vejo a lua,
lembro de mim a perguntar-te.

domingo, 25 de janeiro de 2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Era uma vez...


















Eu finjo que vivo
Finjo que rio e
que, às vezes, sou feliz.
Finjo que quero
e que me satisfiz
Finjo que sou
esquecida até de que finjo
E só sei que, de fato,
finjo, porque uma vez eu fui
sem nem saber fingir.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Poema raso




De tanto navegar em águas fundas 
de mar de amar,tombar em tombos, 
perder-me à deriva, 
fiz-me marinheiro que erra
na arte da despedida, 
e na solidão da arte de desamar.







sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A borra de café



A borra de café
   o beijo trouxe                          
                   
                     tão quente                        
                          na boca
                         queimou         
                         
                                     

A poesia e o lápis.




Quando menina, jogava o jogo do “o que gostaria de ser”. Um falou que seria cão, outro, um passarinho, outro seria super-homem. Mas um, bem baixinho, disse:
- Quero ser lápis.
Ela que nem decidira pensar em que ser, arregalou os olhos para aquela resposta “um lápis”! E, rápido, respondeu:
-Eu quero ser poesia.
Desde então, sempre a procura, a poesia, a saber como ser poesia.
Enquanto isso, ele a escreve e escreve e escreve...

sábado, 8 de novembro de 2014

Salmo 0



Salmo 0

“Todo mundo tem um dom. O grande pecado é trair seu dom.”
João Ubaldo Ribeiro


Não orientarei sentimentos, indicando portas por que devam entrar ou caminhos que devam evitar.
Trago sentimentos do mais livre arbítrio, que vivem do seu sentir ou, se não, recolhem-se, inteiros, em silenciosa verdade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Gênese

Havia perdido as certezas. Eram já poucas as que tinha, mas agora acabava de perdê-las de vez.
Tentou explicar o fato à mulher que, distraída com sua revista, perguntou-lhe a pergunta fatal:
- Quais certezas?
E, subitamente, ele se viu caindo uma queda sem fim nem começo numa espécie de buraco negro de ideias. Descobria, então, se descoberta se pudesse chamar, que suas poucas certezas, ali, sempre a seu lado, tornaram-se absolutamente indistinguíveis, indecifráveis. Não sabia se, sequer, chegaram a existir. A própria inexistência também se lhe apresentava duvidosa: inexistiriam as próprias certezas em sua existência material ou inexistiriam em sua existência ideológica?
Por costume ou por uma espécie de atavismo trazido da convicção das certezas ainda que parcas, iluminou-se nele, em lampejo, um certo alívio ou um quê de contentamento ao supor que fossem talvez suas certezas como uma deidade a quem ninguém define ou prova a existência, mas sabe que, de alguma forma, ela é.
Sim, eram esses os sintomas do insondável existir de suas certezas, por isso tão poucas. Talvez, nem fossem poucas, mas uma única, onipresente, onisciente certeza.
Por algum momento, aquela certeza já ausente, assentada tão somente em um fio de sua lembrança, passou a ter uma forma estelar, universal e transcendental.
O homem olhou-se no espelho com tamanha e irreconhecida firmeza, seus olhos brilhavam com a luz da descoberta, do autoconhecimento e do alto conhecimento. Estava quase em estado de êxtase existencial e tudo a seu redor pareceu menor: a revista, a mulher, a imagem refletida no espelho, o livro fatídico aberto no colo...Era um deus a levitar.
Porém, deleitando-se nesse território divino, algo lhe pareceu estranho.   Pois se suas certezas tão indecifráveis o jogavam em um plano de divindade, elas de fato e inexoravelmente o tinham abandonado, uma vez que o suporte do divino é a crença e esta, por mais encravada que seja, é essencialmente feita do barro da - e a palavra lhe saiu quente e caudalosa como lava de vulcão - dúvida.
Num átimo, percebeu que, na verdade, estava a enaltecer mais a memória falecida da ausente certeza do que a tragédia de sua perda e, diante dessa constatação, operou-se, enfim, o completo preenchimento de seu vazio por toda dúvida.
E naquela noite, como nunca havia feito, dormiu um sono solto, largado, embalado na sua entrega de nada ter de saber ao certo. Enfim, apenas não tinha certezas.

Talvez, quem sabe, o dia seguinte amanhecesse.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

VIP




Um dia você vai entender
o meu jeito de, 
não sendo,
ser até um pouco sua
que não faço da liberdade
um mote de protesto, 
ao contrário, 
ela é um modo de ternura
E que só na sua cabeça,
que tão débil me contesta,
meu amor alardeado 
e essa febre de viver
não têm grife e compostura
e não entram na sua festa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Avesso


Eles não combinavam
em quase nada, admitiam.
Mas inexplicável tamanha vontade, 
aquele querer entorpecente
de um com o outro descombinar.